Hoje é domingo de carnaval. Este país imenso está imerso em fantasias e em quimeras e a realidade crua vai chegar, independente da nossa vontade, já na quarta-feira. Nelson Rodrigues falava com a sua rabugice costumeira: “nosso carnaval moderno é uma sucessão de quartas-feiras de cinza.”
É claro que todos devemos ter consciência de que, vez por outra, é preciso dar uma parada. As pessoas, muito mais que as máquinas, precisam de descanso. Mas, o que é descanso para uns pode ser cansaço para outros. E este espaço não serve para dar receitas de bem viver, até porque minha vida também não é lá essas coisas todas.
Dizia que toda pessoa, vez por outra, precisa de uma parada. Mas, como a máquina, essa parada só tem razão se auxiliar o nosso bem-estar. Imaginemos, por exemplo, uma pessoa que, dirigindo um carro, saiu de sua cidade com a família no dia de ontem, cheio de bagagem, dirige centenas de quilômetros em estradas ruins e movimentadas, vai para um local qualquer onde, via de regra, fica bem menos acomodada que em sua casa, come e bebe mais que o normal, dorme pouco porque vai a festas ou fica a ver os desfiles das escolas de samba. Terça ou quarta tome estrada de novo, e lá se vem mais uma família estressada, apesar dos cinco dias de descanso. Marido e mulher discutindo e meninos reclamando, isto sem falar no trânsito.
Posso estar exagerando, é verdade. A pergunta, porém, persiste: valeu o “descanso”? Cada um pode responder a essa pergunta, mas seria bom imaginarmos porque, por exemplo, os fabricantes de automóveis estabelecem revisões – que são paradas – periódicas. Nessas paradas é feito um exame de todo o veículo. Da mesma forma, deveríamos aproveitar essas paradas que o calendário nos dá. Fazer coisas simples. Dar uma geral em nosso corpo e nossa cuca: como cortar cabelos, examinar as unhas, medir a cinturinha e comparar com o furo do cinturão velho. Abrir a boca, olhar os dentes, tentar fazer aquele exercício que nos foi recomendado e relaxamos. Conversar, brincar com os filhos, rasgar papel velho, andar a pé, separar roupa que não se usa mais, telefonar para alguém distante, ler, escrever ou ver aqueles filmes velhos tipo Casablanca, Cidadão Kane, Tempos Modernos, Cinema Paradiso e outros atuais à sua escolha.
É claro que, para quem gosta, vale a pena dar seus pulinhos, tomar cerveja e se meter no meio do frege. Faça o que gosta, mas tome cuidado para não virar estatística, pois os jornais, as rádios e as televisões ficam de plantão só para dizer dos acidentes fatais, dos comas alcoólicos, das brigas de ruas e de tudo o que foge ao normal. Dê um jeito de esquecer o computador, esse tóxico que causa dependência e não nos deixa desligar. Permita-se andar descalço, ficar alheio, rindo até das bobagens que já fez, e tente segurar, com carinho, a mão de quem você gosta. É tão simples e faz bem à cuca. Caso contrário, previna-se.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/02/2002.

