CARTA ANÔNIMA

Alguém me telefona do sul do país e pergunta o que fazer com uma carta anônima. Respondo, sem titubear: deixá-la anônima, não passar o recibo que o seu autor ou autores desejam.
Segundo Aristóteles, a coragem é a primeira qualidade humana, pois garante todas as outras. Quem não tem coragem, utiliza, por exemplo, o recurso da carta anônima.
Há uma corrente psicanalítica que considera a carta anônima uma coisa abjeta. Quem escreve uma carta anônima, no mínimo, tem medo de mostrar a sua cara, deixando patente, segundo essa corrente, a sua pequenez.
Ninguém e nenhuma instituição são tão fortes que não possam ser enfrentados. Se você se sente fraco, impotente, procure alguém para lhe aconselhar e respaldar. Una-se à sua associação de classe, procure a polícia, um advogado, a imprensa ou a justiça. Agora, escrever carta anônima é um recurso absolutamente descabido e inócuo. Ninguém pode ou deve acreditar em pessoas que não têm coragem de defender os seus pontos de vista e usar o seu próprio nome ou, se for o caso, do grupo ou instituição que integra.
Imaginemos que uma pessoa A não goste da pessoa B e não tenha coragem de enfrentá-la. Será muito fácil dizer cobras e lagartos de B, utilizando-se do recurso do anonimato. Da mesma forma, se algumas pessoas, em bloco, se julgam prejudicadas, estabeleçam uma estratégia e mostrem a sua identidade. Quem não aparece e não tem coragem de enfrentar o adversário não merece fé.
A carta anônima é uma instituição antiga, usada, segundo especialistas, via de regra, por pessoas invejosas, recalcadas e que se comprazem em denegrir, sem provas, a honra alheia, quase sempre construída a custa de muitos sacrifícios. Ora, como acreditar em quem tem medo de aparecer? O argumento de que a pessoa denunciada tenha um aparato para defendê-la não procede. O Presidente Collor foi apeado do Poder porque os seus denunciantes tinham nomes e assumiram suas acusações. Um dos denunciantes era um simples motorista.
Viver é correr riscos. O autor da carta anônima, quando não identificado – o que quase sempre acontece pelas pistas que deixa – não corre risco nenhum e pode jogar lama nos outros de uma forma condenável para ver se fica alguma sujeira.
“Ninguém pode usar máscara por muito tempo”, já dizia Sêneca. É por isso que os autores de cartas anônimas, mais cedo ou mais tarde, são identificados. Principalmente agora que a tecnologia funciona junto com a criminalística na elucidação do que se imagina secreto.
Quem já foi alvo de alguma carta anônima sabe o quanto é desconfortável não identificar a pessoa que está lhe assacando impropérios. Aquele que tem indícios ou provas, pesquisa, mostra, desmascara, enfrenta, denuncia ou utiliza a imprensa que está ai sequiosa por notícias e manchetes.
Ao receber uma carta anônima não a propague. Jogue-a no lixo. Se você ainda não é, poderá ser a próxima vítima e, nessa ocasião, não estará rindo da desgraça alheia. Ficará atônito e amaldiçoará quem utiliza tal expediente torpe.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/09/1999.

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