Não fui à Assembleia Legislativa. Não queria vê-lo inerte. Por você, nos últimos meses, havia estado lá. Uma vez, por ocasião da homenagem aos oitenta anos da sua empresa. Ouvi o seu agradecimento e comentei que você falou melhor quando saiu do script. Lembra? Na outra, você me convidou para paraninfá-lo em duplo recebimento de prêmio. Depois, ficamos conversando a sós, como era rotina, até que o deixei em casa. Você sabe que nosso conhecimento vem de longe, muito longe e nunca teve viés de interesse, tampouco de negócios ou falávamos de pessoas. Trocávamos ideias e conversávamos sobre projetos, família, filhos, Fortaleza e o nosso Estado. Havia, entretanto, um pudor ou respeitoso silêncio mútuo sobre as dores da vida real. E por isso, hoje, me culpo. Esse limite tênue entre a intimidade e a bisbilhotice era respeitado desde os anos 70 quando viajamos juntos à Europa. Depois, pelo destino, nos tornamos uma rara espécie de contra-parentes. Foram muitos os encontros, em almoços, jantares, festas, ocasiões de luto, bate-papos, visitas, telefonemas e e-mails em que divagávamos, até sobre música, por seu viés de violonista encabulado. Mais uma vez, culpo-me por não ter lhe falado de outro Demócrito, o filósofo grego, nascido quatro séculos antes de Cristo. E eu poderia ter lhe dito alguns fragmentos do que ele escreveu. Em um deles, ele disse: “nós na verdade não conhecemos nada de certo, mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo.” Em outro, ele referia que: “falsos e hipócritas são aqueles que tudo fazem com palavras, mas na realidade nada fazem”. Você era um artífice de sonhos e do fazer acontecer. Basta abrir seu jornal, ouvir suas rádios, ver a sua televisão, ler as centenas de publicações de sua editora e constatar as ações de sua fundação e instituto que se transformam em audácia e vanguarda. Por fim, eu teria dito outra frase de Demócrito, o de Abdera: “Ocupe-se de pouco para ser feliz.” Mas, eu sabia que suas múltiplas vidas ocupavam uma mente criadora e que centenas de pessoas dependiam de seus sonhos metamorfoseados em ação que me obrigam a vê-lo sempre de pé, com o olhar de futuro.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/05/2008.

