CEARÁ, FORTALEZA, FUTEBOL E LÓGICA – Jornal O Estado

“Gestão é substituir músculos por pensamentos, folclore e superstição por conhecimento, e força por cooperação”. Peter Drucker
Amanhã, sábado, o Fortaleza Esporte Clube joga a sua sorte ou competência na terceira categoria do futebol brasileiro. Não importa o resultado, mas as razões de estar a seis anos, nesse sufoco. Não há lógica em insistir em jogadores rodados, sem viés de sentimento local em detrimento dos jovens das categorias de base. O Castelão estará cheio de torcedores tricolores torcendo por um time onde a maioria dos jogadores é de fora. Ganhando ou perdendo, é preciso mudar essa lógica perversa de só acreditar nos outros. Precisamos, primeiro, acreditar em nós mesmos, em meninos dos subúrbios, em egressos do sub-20. Chega de importações falaciosas.
Os dirigentes do futebol cearense, com todo o respeito, pouco se preocupam com o futuro, vivem, cobrados pelas torcidas, apenas o resultado do hoje, sem lógica e falta de perspectiva de médio prazo. O Ceará Sporting, queira Deus, consiga sair do rebaixamento. Não pode reclamar de dinheiro, tampouco da sua torcida. Comete – um degrau acima- quase os mesmos erros do seu rival. É preciso coragem para admitir claudicações e corrigi-las.
O Brasil da euforia lutou e conseguiu – sabe Deus como – trazer uma Copa do Mundo de futebol para cá. Estádios novos foram construídos. Outros, desmanchados e refeitos seguindo um caderno de encargos da Fifa, espécie de multinacional dominada por interesses de toda ordem, posta fora da lei por uma investigação heterodoxa dos Estados Unidos. O que lucramos com a Copa? Perdemos na bola. De forma feia e desconcertante.
As obras de infraestrutura, Brasil afora, não foram concluídas e o que se viu foi a submissão do país às vontades do francês Jérôme Valcke, secretário geral, e a aceitação de Joseph Blatter, presidente da Fifa, como um quase estadista. Hoje, Valcke e Blatter estão com os dias contados no futebol. Até Michel Platini, o ex-grande jogador gaulês que se profissionalizou como “cartola”, está no rol de indiciados.
Sendo o futebol um esporte lógico, pois quem vence, quase sempre, é o melhor (se não houver interferência do árbitro, é claro), é preciso virar a página e fazer diferente. Aqui, no Brasil afora e no mundo, renovando toda a cadeia futebolística. O jornalista Juca Kfouri, sempre cáustico, conta horrores sobre “o mundo imundo do futebol” em artigo publicado na página B4, da Folha de São Paulo, de segunda-feira, 12, deste outubro.
De campeão do mundo o Brasil foi se transformando, faz tempo, em mero exportador de jovens jogadores. São milhares espalhados pela Europa, Ásia e até nos Estados Unidos. Essa exportação, em massa, passa agora por fiscalização geral em países como a Espanha e chegou ao Brasil.
Voltando ao nosso “pebol cearense”, como diziam os cronistas esportivos do passado, é preciso uma reflexão coletiva, racional e objetiva para mudar o que está posto, pois se certo fosse, o Fortaleza Esporte Clube e o Ceará Sporting não estariam, apesar das receitas, torcidas vibrantes e parceiras, nas incômodas posições em que se encontram. Quem não usa a lógica para ver o passado e o presente, não pode estabelecer diretrizes para o futuro. O futebol, além de paixão, precisa de razão eficaz.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/10/2015.

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