CEARENSES SÃO INTELIGENTES E PODEM BRILHAR – Jornal O Estado

Quando um país está atrasado por falta de atividade intelectual, é impossível que ele se eleve.
Clóvis Beviláqua.
Sempre que acontecem vestibulares no Instituto Militar de Engenharia-IME, no Instituto Tecnológico de Aeronáutica-ITA e até na USP há um grande número de cearenses aprovados. O mesmo ocorre nos vestibulares de cursos de medicina, hoje avidamente procurados.
Não há dúvida de que a maioria desses jovens faz parte de turmas ditas “especiais” de alguns colégios particulares, mas, vez por outra, aparece alguém de escola pública nas listas que fazem a alegria de famílias pobres. Há pais que, mesmo sem estar no patamar de cima da pirâmide social, pois são pobres ou da classe média, investem na educação dos filhos, priorizando-as em lugar do consumo ou de viagens sem conteúdo cultural.
A cada um desses vitoriosos jovens ainda no pórtico da vida real dou os meus parabéns. Fiquem certos, eles e as suas famílias, que o conhecimento é o diferencial competitivo neste tempo de crise. O saber é dessemelhante da esperteza. Dizia Sócrates, no quinto século antes de Cristo, que “existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”.
A esperteza é uma habilidade maliciosa; malícia, manha e astúcia, segundo o dicionário do Aurélio. Parece que estamos vivendo os estertores dos espertos, aqueles que se apropriam do que lhes convêm, sem medir consequências e tampouco ligar para os direitos alheios.
A era do conhecimento vem seguindo o desenvolvimento tecnológico e a armadura social decorrente. Ela vai mostrar, acreditem, a diferença entre os que fazem o bem e os que fazem bem as suas espertezas. Esses jovens, alguns imberbes, são bálsamo para um Estado pobre, ainda com indicadores de desenvolvimento social aquém do desejado.
Investir em educação qualificada, em remunerar melhor os professores, tornar clara a intenção de aperfeiçoar o ensino fundamental, que deveria ser uma das prioridades de todos os níveis de governo. A entrada para a vida que se abre aos que estudam – e aprendem – com afinco é o investimento em educação e a disseminação da arte e da cultura.
O humor cearense, tão bem representado por Chico Anysio, mostra à exaustão a diferença entre o conhecimento e a esperteza. Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho era um estudioso da alma humana e os seus mais de 200 tipos de personagens refletem a sua capacidade de dissecar –com humor – toda sorte de artes e vícios. O deputado Tiririca, reeleito em São Paulo com mais de um milhão de votos, indagado por um repórter que o queria encurralar, respondeu por que não havia se candidatado no Ceará: “o cearense não é abestado”. Algo assim.
Dou parabéns aos dirigentes desses colégios particulares que nos colocam em panteão diferenciado no cenário dos vestíbulos às escolas mais cobiçadas pela ‘intelligentsia’ dos que se preparam para a vida que chega. Aos poucos, das escolas públicas, que se abeiram ou tentam chegar ao mundo sério e duro do conhecimento, o meu incentivo.
Ofereço, através deste artigo, passagens de ida de avião para os reconhecidamente pobres, aqueles cuja família renda familiar só atinja até dois salários mínimos, e tenham conseguido passar, agora neste final de 2015, no ITA, IME ou na USP (medicina). Este é um compromisso que assumo com os colégios públicos, com os aprovados e com os seus pais. Como disse Patativa do Assaré: “Sou brasileiro, filho do Nordeste. Sou cabra da Peste, sou do Ceará”.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/12/2015.

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