Quem deseja conhecer um pouco mais da obra, da vida e da história do pintor Chico da Silva não deve perder a grande exposição já aberta ao público na Galeria Benficarte, no Shopping Benfica, todos os dias, das 10 às 22 horas. Não paga nada. É só entrar, olhar com vontade de entender o turbilhão que era o pincel/imaginário de Chico da Silva. Ela ficará aberta até o dia 30 de novembro e é comemorativa dos 100 anos de vida desse grande pintor primitivista ou naïf, como querem os franceses, que deixou seguidores e imitadores. Lembro que corria o ano de 1966. Um dia, recebo telefonema de Fernando Heráclio Silva, colecionador de artes, que me pergunta de bate – pronto se eu conhecia as pinturas do Chico da Silva. Claro, respondi. Chico da Silva, naquele mesmo ano, havia ganhado, com suas pinturas primitivas e alucinadas, Menção Honrosa na Bienal de Veneza, Itália. Fernando, objetivo, disse: procure-o e compre todos os quadros que encontrar. Dia seguinte, peguei o carro e fui procurar/encontrar a velha casa do Chico da Silva no coração do Pirambu. O Pirambu, nesse tempo, havia recebido uma demão de boa vontade do padre Hélio Campos que, por sua estatura moral e eclesiástica, bradara alto sobre a miséria da área favelada e a carência de documentação legal das ocupações. O fato é que me vi dentro da casa do Chico, uma mistura de moradia, ateliê e bodega, pois sempre havia família, ajudantes/aprendizes, comida e aguardente por perto. Fiz a compra solicitada, paguei o devido, recebi parte das telas. As outras, o Chico iria me entregar depois. A partir dessa entrega, o Chico, vez por outra, aparecia com uma porção de quadros. O táxi ficava esperando e ele, já meio alto, vendia, agradecia, prometia voltar. E voltava. Esta introdução diz da alegria de ver esta exposição dos supostos 100 anos de vida de Chico da Silva e dos reais 25 anos de sua morte. O acervo apresentado é quase todo do colecionador Lincoln Machado. Para ele, “o que importa é saber quem foi o artista que se dizia índio do Acre (para onde foram e voltaram tantos cearenses, observação minha) e que levou o nome do Ceará para… Moscou, Paris, Veneza e tantos outros”. Roberto Galvão, pintor e mestre, fala da inserção na revista Cahier D’ Art, de Paris, de reportagem com oito páginas quando Chico ganhou a Menção Honrosa… Entretanto, diz Galvão: “É necessário que se faça um resgate de sua obra. Torna-se urgente um registro completo de suas pinturas e as de seus seguidores”. A Secretaria da Cultura do Ceará está associada a essa homenagem e “sente-se no dever e o cumpre ao apoiar esta iniciativa que considera relevante.” A Câmara Municipal de Fortaleza se associou às homenagens. A mostra tem a curadoria do artista plástico João Jorge Melo e apreciações técnicas de Roberto Galvão, conhecedor da vida e da obra de Chico da Silva, figura tão surrealista quanto suas linhas e curvas multicores, urdidoras da tessitura predecessora de figuras como as das aves aladas do filme Pandora. O convite está feito. Veja os comentários, confira o delírio e a arte e desse homem simples e grande que, 25 anos após sua morte, estão sendo discutidos, mostrados e apreciados. Não perca.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/11/2010

