CHOVIA EM BRASÍLIA – Jornal O Estado

“Na verdade quem projetou Brasília foi o Lúcio Costa. Eu fiz uns prédios e avisei que… não ia dar certo.” Oscar Niemeyer Soares
Estive em Brasília. Em trânsito. Era noitinha. Chovia. Nada a fazer, o avião demoraria horas. Apanhei um coletivo e a chuva aumentou. As repartições estavam fechadas com luzes acesas. Os limpadores do para-brisa trabalhavam para me mostrar, entre grossos pingos d’água, o Eixão com os prédios bonitos e os monumentos projetados por Niemeyer Soares, o Oscar. Ele não usa este último sobrenome. Talvez seja implicância comigo. Em troca, repito o que dizem alguns usuários dos prédios que projetou no meio do cerrado: são bonitos, mas mal divididos internamente.
A cidade de Lúcio Costa completa 52 anos neste abril e já comporta, dentro e fora do plano piloto, muitos problemas urbanos e aqueles outros criados ou urdidos pelos que acreditam que nela moram. Meros passantes nas casas nobres da cidade. O que são alguns ou muitos anos no tempo infinito? São eles, os passantes, quase todos, usuários de aviões que os levam e trazem, plenos de empáfia e vazios de brasilidade. Até pagariam para estar lá. Integram clubes. Nesses clubes jogam fichas com todas as cartas de terça à quinta. Refestelam-se alhures nos fins de semana ou em seus torrões com os que os incensam em troca de favores. O veículo faz a curva e entra no Setor Hoteleiro. Quantas bandeiras. Quantas tramas foram maquinadas em seus apartamentos impessoais. Começou no Hotel Nacional. Tempo de Juscelino.
Lembro que Carlos Heitor Cony acredita ter sido JK vítima de “acidente forçado”. Como?. O carro Opala em que ia de São Paulo para o Rio, dirigido por pessoa de sua confiança, atravessou o canteiro central da Rodovia Pres. Dutra e foi colhido por um caminhão Scania em sua mão de direção, em Rezende, RJ, no dia 22 de agosto de 1976. Falou-se que um ônibus da Viação Cometa teria batido na traseira do carro e o desgovernara. Cony diz que JK, Jango e Lacerda, os não amigos e integrantes circunstanciais da “Frente Ampla”, morreram por encomenda num espaço de nove meses. Coincidência e especulação jornalística?
João Goulart, cardíaco e abstêmio compulsório, estanciava no exílio do Uruguai. Na companhia da sua mulher Maria Thereza e amigos viajou muito em um só dia. Usou avião pequeno, barco e, depois, dirigiu um carro até Corrientes, Argentina, onde tinha outra fazenda. Chegou exausto, jantou churrasco, foi dormir e não mais acordou na madrugada de 06 de dezembro de 1976. Carlos Lacerda, estressado por natureza, tomava remédios, gripou e acreditava-se cardiopata. Desidratou e foi levado de ambulância à renomada Clínica São Vicente, no Rio. De lá saiu o esquife em 21 de maio de 1977.
Volto ao aeroporto. Desço, entro em uma livraria, compro livros. Passo pelo controle, embarco e coloco o cinto. O avião taxia, limpo os óculos e começo a ler “O Corretor”, de John Grishman.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/04/2012

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