Em qualquer cidade brasileira de médio ou grande porte, você que guia um veículo de uso pessoal terá, ao longo do dia, além dos problemas de vias de péssimas qualidades, engarrafamentos, batidas, manifestações, alagamentos e desvios, “pardais” escondidos ou olhares eletrônicos disfarçados que o multam, se transgredir regra de trânsito, e ‘blitze’ que podem ser reais ou falsas. Isso é apenas o começo. Além disso, você terá que conviver também com falsos ou reais “flanelinhas” que azucrinam a sua vida em todos os semáforos. Querem dinheiro, vender quinquilharias, lavar o para-brisa, mesmo que esteja limpo e, não muito raro, assaltam. Quando você, depois de todo o esforço, consegue chegar ao seu destino e estacionar, a novela continua. Agora, entram em ação os “guardadores de espaço”. Os que se apropriam de ruas, avenidas e praças e cobram, uns de forma acintosa, para que você estacione em áreas públicas que bloqueiam com cones e outros objetos. Esses espaços públicos são divididos em zonas. Cada uma tem seu “dono”, pastores pós-modernos de um rebanho de incautos.
Sabemos que há muitos problemas sociais a resolver. Que há desemprego e que a desigualdade também é fruto da nossa indiferença e erro. Mas você, certamente, tenta fazer a sua parte, do melhor jeito que pode. Paga tributos, taxas e até participa de ações sociais. Mas ai de você, se não pagar a um “guardador”. Seu carro será arranhado, na melhor circunstância. Afora isso, nessas mesmas zonas, assaltos acontecem. Há pouco tempo, um casal, que ia participar de uma manifestação justo contra a violência, estacionou o seu carro, foi assaltado. Ainda hoje, o cidadão assaltado sofre as duras consequências físicas desse inopinado encontro. Viver em uma cidade sitiada é prova de que os governos não estão cumprindo com as suas obrigações e missões básicas. O que é propagado não é cumprido e todos se acovardam. A palavra cidade, vem do latim civitate, ela é ‘prima’ da cidadania que é a qualidade de ser cidadão, indivíduo no gozo de seus direitos. Direito de morrer ou sobreviver?
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/04/2007.

