CINCO MULHERES – Jornal O Estado

Deixem que misture a luz da razão e invoque sonhos. Neste sonho, agora acordado, vejo o transcurso (em ordem alfabética) das vidas de cinco mulheres. Mulheres de Bem. Primeira: Ana Studart, mulher que se uniu a um jovem destemido e soube, por prova provada, que a vida é uma roda gigante. Acompanhou-o em todos os passos com amor, serenidade e companheirismo. É mãe de quatro filhos, senhores de seus destinos, que têm nela a âncora de seus passos. Foi a profissional de administração que cumpriu, com responsabilidade, tarefas no serviço público. Recentemente, veio ter nas águas difíceis da benemerência, procurando distinguir doação de ação social. Soube que isto implica em integração com o próximo. O que vale é o ato de doar-se, de engajar-se, de interagir com pessoas que merecem suas benesses. Segunda: Imaginem uma jovem normalista da Rua da Assunção, filha de Pio Rodrigues, sendo cobiçada por galante paraibano que aqui se instalara com talento e capacidade inovadora para passo a passo, se tornar referência no comércio e na direção de entidade classista. Pois foi assim. Clóvis e Edyr Rolim descobriram-se e uniram-se para o sempre. Mas, em 1984, o insondável transformou em viúva a mulher e mãe de quatro jovens cavaleiros sedimentados na luta e se fez chefe de família e de empresas em áreas diversas que dignificam os sobrenomes Rodrigues e Rolim. A partir daí, com discernimento, Edyr e os filhos formaram um núcleo familiar coeso, exuberante e sempre cavalgando para o futuro. Futuro que já é hoje. Terceira: Gisela Nunes da Costa aqui estudou para subir e descer com pergaminho à mão os degraus do velho prédio da Faculdade de Direito. Dois anos depois, por concurso, seria das mais jovens magistradas dos anos sessenta. Optou por casar com a Justiça e se fez acompanhar, por onde andou, da família e animais que cria e ama. Armou–se de saber e sabedoria para enfrentar os sertões com a simplicidade de nativa. Voltou à capital por mérito. E ela não queria apenas saber de jurisprudência e doutrina. Foi professora universitária e eclodiu a desembargadora simples, no falar, viver e vestir, amante de fuscas e jeeps. A que sabe ouvir e contar histórias com a fé dos que superam enfermidades, vencem a soberba e galgam, mesmo sem cobiça, os lugares devidos. Quarta: Maria virou Nice para casar com Nilo que se tornou Estrigas. E da firmeza da relação despontaram dois artistas, cada um do seu jeito, fontes distintas de um saber comum. E entre linhas, agulhas, pincéis e tintas, emerge o seu simbolismo naif com cores fortes, denunciadoras do apego à vida, família e jovens, ao chamego com a natureza do Mondubim, onde, junto com Estrigas, montou o Mini-Museu Firmeza. Despretensiosa, mas com trabalho e destemor, está no mundo da fantasia, desde os anos 50. Quinta: Sílvia Magalhães saiu do colégio da Imaculada para ser médica, mas focou as lentes do seu microscópio em plasmas e células em suspensão, dando ênfase à Hematologia. Tornou-se mestre e doutora por acreditar na necessidade do saber continuado. Vê, no dia a dia, a doença insólita como a noite e veloz como um raio e sabe ser preciso a clareza do microscópio e o olho vigilante para diagnosticá-la e debelá-la no tempo certo. Participa de pesquisas nacionais e internacionais, que a ressaltam em eventos médicos. Seu jeito cioso e centrado no outro a tornou vulnerável. Parafraseando o ensaísta inglês Charles Lamb: A doença amplia as dimensões internas da pessoa. E assim o fez, com força interior, superou males e se reafirma sadia e plena como cientista, leitora voraz e praticante do esporte diário como fontes de energia. Parabéns a todas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/03/2010.

Sem categoria