A Academia Fortalezense de Letras está tentando levantar a discussão sobre a relação do cinema com o cultura. Não há nada de novo sobre o tema, mas apostaremos em uma abordagem diferente e atualizada. Não será preciso enumerar a quantidade de clássicos da literatura nacional e internacional que foram adaptados para o cinema. Uns, com êxitos de bilheteria. Outros, nem tanto. Não importa. O que vale é a revisita às obras e aos autores que serão apresentados. Escolhemos ouvir, para iniciar a discussão na noite de ontem, a opinião do professor universitário e crítico de cinema Luiz Geraldo Bezerra de Miranda Leão, uma das autoridades no assunto no Brasil, com livros publicados. Ele tem cultura linguística e longo conhecimento de cinéfilo para abrir essa série que, acreditamos, constará da apresentação – aberta ao público – de filmes, precedidos ou seguidos de debates. E esses debates não ocorrerão de forma aleatória, mas no intento de trazer novos públicos às academias, difundir a cultura e oferecer uma visão crítica do autor e sua obra e da teoria e estética dos filmes. Ao mesmo tempo, servirá para mostrar que aceitamos que a cultura é também o conhecimento sedimentado, mas vivemos no hoje e podemos nos valer dos recursos áudios-visuais para democratizar o saber que temos ou podemos adquirir. Vale, por oportuno, destacar que a Academia Brasileira de Letras, na gestão do Acadêmico Marcos Vinícios Vilaça, realizou uma série de seminários e conferências sobre as relações da cultura com a culinária, a moda, a cultura popular, a música popular, a ciência, a arquitetura, o urbanismo e a arte. Estamos, sem imitações, em boa companhia e abertos a associações com a Secretaria de Cultura, academias, cine-clubes e entidades nas discussões e prática. Inclusive, quem sabe, levantando alternativas locais ou regionais para o que se convencionou chamar de “favela movie”. Um exemplo disso está aí nas telas, o filme anglo-indiano “Quem Quer Ser Um milionário?”, dirigido por Danny Boyle que conseguiu vencer o Oscar de 2009, na categoria de melhor filme. Ao contrário do brasileiro “Cidade de Deus”, em que notoriamente se inspirou, procurou uma solução, talvez mágica, mas com encadeamento luminoso, sem deixar de ser um filme-denúncia da pobreza na Índia, porém com leveza e até alegria em meio a dramas pessoais e estruturais. A atual visão brasileira de cinematografia e estética sobre as mazelas das favelas, feita quase sempre por diretores ricos, passeia pela quase-denúncia e fica só nisso, sem trazer esperança que alimente os que vivem o drama narrado e quiçá um pouco de prazer, por que não, aos que se deslocam- pagando ingresso – às salas de cinema. Acrescente-se que, na saída, estarão lá os “guardadores” de carros e os trombadinhas. Mas isso é outro filme.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/02/2009.

