Comecei a ir a cinemas ainda de calças curtas. Morava na Rua Major Facundo e ia a pé para o centro que distava apenas três quadras.
Havia filmes e seriados. Explico: tais como as novelas de televisão de hoje os seriados apresentavam muitos capítulos e sempre, cada um deles, concluía com cenas e momentos de perigo para o mocinho acossado pelo bandido. A ansiedade era o elo para o espectador não perder o próximo capítulo e o fio da meada. Uma das mais importantes era “Flash Gordon”, estrelado por Steve Holland. Nós recebíamos filmes e seriados com anos de atraso.
Hoje, os lançamentos são mundiais e simultâneos. Quase sempre.
Agora, neste 2012, o cinema está mudando não só do tradicional filme de 35 mm para o digital com sons e efeitos compatíveis com o avanço da informática. A televisão aberta e as operadoras de canais fechados têm roubado grande parte da clientela dos cinemas. A solução encontrada foi a de transformar a sala de cinema como uma extensão da casa do espectador. Vi, neste mês de abril, salas de cinemas em que os aficionados sentam em poltronas largas – tipo as chamadas do papai, reclináveis, com uma mesinha retrátil e consulta um cardápio com acepipes e bebidas. Garçonetes servem. Como se já não bastassem a pipoca, os docinhos e refrigerantes. O cinema, em face da crise, resolveu concorrer com a sala de estar das casas que possuem televisões de todos os tamanhos e a comodidade da geladeira e da cozinha. Essa inversão é para reconquistar os adultos e as crianças que se empolgam também com as guloseimas.
Afora isso, a chegada definitiva do filme digitalizado, tal como se faz há anos nos estúdios das redes de televisão, marca o fim do charme e encanto dos grandes rolos de fita que ainda são colados por operadores diligentes em prosaicas máquinas manuais. Era e ainda é assim aqui e em Los Angeles ou qualquer canto do mundo. O fim do cinema analógico está programado para até 2015. O que escrevo não é novidade para os cinéfilos J.G. Miranda Leão, Pedro Martins Freire, Frederico Fontenele Farias e José Augusto Lopes, entre outros, que, certamente, estão atônitos. Essa mudança acontece ao mesmo tempo em que os filmes gerados em três dimensões – 3-D,aprimoram enredos consequentes e não confiam apenas nos efeitos especiais. Chaplin, em outra dimensão, pegará a bengala de Carlitos – seu personagem – com raiva e virará as costas em seus passos sincopados.
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/04/2012.

