CLAUDIO BENEVIDES PAMPLONA, O ASTRÔNOMO – Jornal O Estado

As famílias Benevides e Pamplona integram a coletividade cearense há séculos. Têm muitos ramos. Entrelaçados com outros da terra, já ofereceram contribuições definitivas para as suas inserções no livro da história local. Políticos, profissionais liberais, cantores, administradores públicos, professores universitários, intelectuais e artistas plásticos. Não é preciso nominá-los, basta pesquisar pouco para encontrá-los nas ações que deram forma ao Estado do Ceará, tal como hoje o é.
Filho de Carlos Pamplona e Miriam Benevides, Cláudio Benevides Pamplona nasceu em Fortaleza, cidade brejeira da década de quarenta, cheia de fícus-benjamim, centrada na Praça do Ferreira, em meio a “blackouts” nos areais brancos onde as famílias de então faziam florescer aglomerados ou bairros, em quadriláteros, iluminação bruxuleante, sem saneamento básico, consumindo água da “Pirocaia”, transportada em carroças puxadas por jumentos.
Fortaleza era ocupada, desde o Pici (“Post of Command”) até os areais da Praia da Iracema, por forças americanas do norte que faziam dela uma base militar de jovens pilotos – com o suprimento de uma intendência cheia das cobiçadas sodas Coca-Cola e dos cigarros “Camel” e ”Lucky Strike”. Vieram para “flertar”com as moçoilas locais, atravessar o oceano Atlântico e alcançar o teatro de operações da Segunda Guerra na Europa, um dos seus fulcros.
Cláudio começou a estudar já na época da redemocratização brasileira, após a Guerra e a queda da ditadura de Vargas, e, descobriu-se talentoso em desenho (lado Pamplona) e canto orfeônico (lado Benevides). Mas formou-se em direito, já nos anos ditos de chumbo, quando o país estava imerso no regime militar. Bacharel em Direito, barítono, como muitos dos seus primos Benevides, cabeça apenas polvilhada de ciências sociais, deu uma guinada em seu destino e optou por dissentir do que se esperava dele.
Não seria advogado. Viu-se encantado com o mundo silencioso dos astros. Fez-se, apesar disso, professor da Universidade Estadual do Ceará, pois se casara e tinha obrigações a cumprir com o filho Carlos Neto que colocara no mundo. Mas seu lado perquiridor, inquieto e sagaz o fazia olhar mais para o firmamento que para o chão onde pisava. Não pesquisava divindades ou respostas para as aflições humanas, existenciais ou climáticas de nossa região. Olhava, com a ajuda de lentes telescópicas, bem mais alto e procurava, como se fora quase um Carl Sagan, aquilo que foge ao olho comum.
Foi, pouco a pouco, embrenhando-se nas nuvens sem fim da Astronomia, ciência natural que tenta desvendar, constatar ou renegar corpos celestes. Munido de telescópios, livros, desenhos e de uma busca desenfreada para o conhecimento da Astrofísica, coligindo nebulosas, aglomerados de estrelas, planetas e galáxias fez-se cientista.
Criou o seu próprio observatório a que deu o nome de Herschel-Einstein. Ajudou a fundar a Sociedade Cearense de Astronomia e até a NASA (National Air Space Administration) dele coletou informações sobre o universo azul que nos envolve a todos. Nesse seu mundo, fez a imersão com o escafandro da curiosidade e a luneta do sereno-intrigado, a procurar respostas certeiras para dar sentido à sua vida peculiar e inaudita.
Não queria ser diletante, mas observador integrado a uma comunidade científico-especuladora internacional que pode até parecer, aos olhos dos leigos, uma grei de esquisitos, pois não liga para as picuinhas dos homens comuns, os que brigam por pão, pedaços de terra, reconhecimento ou riqueza sem ter a mínima noção da grandeza do universo em expansão e movimento. Somos todos tão mínimos, micros, nanos e o Cláudio sabia disso e ele, mesmo sem o querer, se fez grande pela contribuição ao seu mundo que deu até se finar, no primeiro dia deste julho, aos 70 anos.
Releio Sir Issac Newton, cientista inglês, do século 18, citado por Brewster, in “Memoirs of Newton”, para entender e descrever o que se passa na cabeça de um cientista: “Não sei como pareço aos olhos do mundo, mas eu mesmo me vejo como um pobre menino que brincava na praia e se divertia em encontrar uma pedrinha mais lisa vez por outra, ou uma concha mais bonita que de costume, enquanto o grande oceano da verdade se estendia totalmente inexplorado diante de mim”.
Cláudio, a seu tempo, buscava o grande oceano, que é o firmamento, e as pedrinhas, que são os seus corpos celestes. Suas cinzas evolaram e se misturaram ao cosmos. Sua ascensão ao insondável foi cercada por manchas solares, meteoros, cometas e estrelas. Esses corpos celestes foram os seus querubins.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/07/2013.

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