Steven Pinker, cientista, 44 anos, casado, é diretor do centro de Neurociência Cognitiva do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o famoso MIT. Pois bem, o Dr. Pinker assegura (Veja, 13.01.99) que o “comportamento é resultado de um conflito entre os nossos módulos mentais”. Ainda segundo ele, os homens são mais infiéis não porque desejam, mas por serem volúveis. Diz ele: “Quando uma mulher é infiel, normalmente é porque seu parceiro ocasional é sexualmente mais desejável que o habitual. No caso masculino, a infidelidade ocorre apenas porque uma parceira é diferente da outra. Os homens buscam muitas parceiras pelo prazer de tê-las”. Fica claro, na teoria do Dr. Pinker que a volubilidade masculina independe de sua vontade?
Segundo algumas teorias científicas ainda não comprovadas, seria uma questão de falha no DNA masculino, um problema em seu código genético. Seriam esses cientistas apenas homens procurando uma desculpa para seus comportamentos?
Tomemos, por exemplo, a figura de Bill Clinton. Monica Lewinsky não foi a sua primeira encrenca, foi a mais recente e que lhe causou mais confusão. Antes houve Gennifer Flowers e Paula Jones. A posição de Clinton e os casos revelados de Flowers e Jones deveriam ter acautelado a sua libido. Apesar disso, correndo todos os riscos, Clinton se meteu com Monica. Isso comprovaria a teorias de Pinker ou da falha no DNA masculino?
Adam Phillips, um médico psicanalista inglês, escreveu recentemente um livro chamado “Monogamia”. Nesse livro, Phillips, usa a estratégia dos aforismos, talvez para tornar a leitura mais amena e passar suas mensagens de forma pontual. O primeiro deles: “Nem todo mundo acredita na monogamia, mas todos vivem como se acreditassem. Todos têm consciência de estar mentindo ou querendo dizer a verdade quando estão em jogo a lealdade ou a fidelidade. Todos sentem ciúmes ou se sentem culpados, e sofrem a angústia de suas preferências… Noutras palavras, acreditar na monogamia não é diferente de acreditar em Deus”.
Seria então a fidelidade (ou a infidelidade) uma questão de fé? E aí a palavra fé vem mesmo a calhar. O que é mesmo ser fiel? Ou o contrário disso, o que é ser infiel? Seria apenas uma questão de natureza sexual? Ou, considerando a capacidade do ser humano de pensar e sonhar, envolveria questões subjetivas em que os corpos não são necessariamente envolvidos? O “flirt” é infidelidade? Amizades secretas sem a consumação do sexo são infidelidades? “Desejar a mulher- ou o homem – do (a) próximo(a)” é infidelidade? As pessoas que não traem com medo de perder o “status” são fiéis?
Por outro lado, ser fiel envolveria a perda da liberdade? Todos querem ter liberdade. Poucos admitem que o(a) parceiro(a) também anseia por liberdade? A maioria das pessoas acredita que seus relacionamentos duradouros não são satisfatórios e isso alimentaria o desejo de descobrir algo novo, que quebre a monotonia de suas vidas. Esse desejo, essa busca de liberdade, seria um embrião da infidelidade ou a mera constatação de sua individualidade independente do outro?
Estas questões não tem respostas prontas. As respostas afloram no cotidiano das pessoas e o mais óbvio – e pouco considerado – é que estamos constantemente mudando, com o(a) outro(a) ou apesar do(a) outro(a).
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/02/1999.

