Preenchi um formulário há algum tempo em que a Amana-Key e a Personal, empresas de consultoria, me indagavam se gostaria de participar de um encontro nacional de estratégia de país e, concomitantemente, de um sobre gestão compartilhada. Tempos depois, recebi a confirmação de minha participação.
Entre curioso e desconfiado fui lá conferir. Hoje, depois de tantos cursos, seminários, palestras e encontros, ando meio ressabiado com conversa mole e palavras da moda como cenário, facilitação, paradigma, globalização, milênio, virtual etc. Confesso que ainda não as absorvi de todo. A curiosidade, no meu caso, é sempre maior que a desconfiança e isso mostrou que a minha intuição havia acertado, apesar de tantos erros passados.
Gente de bom nível de todo o país, mais da área pública que da privada, se reuniu e tentou, durante três dias, demonstrar o óbvio: é preciso aprender a compartilhar. É tão óbvio que precisa ser dito a exaustão, pois a maioria das pessoas é, como eu também, desconfiada e precisa se convencer do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues.
A despeito da pieguice do encontro ter se iniciado e encerrado com o “Hino Nacional” e das pessoas se dado as mãos fazendo uma corrente, havia pureza, boa vontade e honestidade na maioria dos presentes. Esses elementos perduraram em todo o transcorrer do encontro, especialmente em depoimentos significativos de integrantes de organizações não governamentais e de gestores de projetos de desenvolvimento sustentável.
Para os que não têm obrigação de saber o que significa “estratégia de país” eu diria que são caminhos diferentes dos que estão sendo trilhados pela maioria dos governantes. Partem de um raciocínio estratégico em que se minimiza o empirismo, o imediatismo e se tenta descobrir maneiras de fazer acontecer e de encontrar alternativas e soluções que permitam a sustentabilidade das futuras gerações em convivência pacífica com o meio ambiente.
Acrescente-se a tudo isso que há gente capaz envolvida na condução e coordenação desse processo. Faltam a difusão na mídia, o comprometimento de políticos e de grande parte da sociedade organizada, ainda alheia a essa nova onda. Hoje, mais do que nunca, vivemos em ondas.
Esses encontros tendem a proliferar e ganhar corpo. São o fio de um novelo condutor que poderá tecer uma teia em todo o país, sem partidos e interesses menores. Criticam, analisam, mas não visam a derrubada de ninguém. Querem correção de rumo, enquanto há tempo. São, como se depreende de um documento entregue, tais plantadores que vão jogando sementes de idéias para fora, às vezes até desconexas, sem sentido e que germinam, transformando-se em conhecimento, procurando encontrar respostas para os problemas brasileiros.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/04/2000.

