Vivemos tempos tecnológicos onde tudo é fugaz. O saber de ontem é a ignorância de hoje. Confesso que, muitas vezes, fico intrigado com tantas teorias novas que, logo cedo, viram modismos. Não importa nominá-las para não magoar “facilitadores” e os que ainda permanecem como seus seguidores. Fico intrigado e acrescento, de orelha em pé, quando alguém, de boa fé, me diz que contratou uma consultoria de alto nível para isso e aquilo.
Ora, a primeira indagação é saber se a empresa e os seus dirigentes têm essência para entender e aplicar as novas técnicas que vierem a ser implantadas. Em segundo lugar, é preciso saber quem são e quais as experiências de “alto nível” da consultoria. Já se disse que “especialista é alguém que vem de longe”. Não basta vir de longe, trazer modelos prontos e criticar o que, bem ou mal, está funcionando. É preciso chegar junto e conhecer não só a realidade da empresa, mas as peculiaridades do mercado em que tenta sobreviver.
Vi muitas dessas empresas com problemas sérios depois de reformularem seus métodos, sistemas e processos. Vi dirigentes com as mãos à cabeça sem saber o que fazer com tanto papel, sistemas “on line” e o diabo a quatro, enquanto olhavam bestificados para as modificações no lay-out e mobiliário de suas empresas e descobriam que os problemas financeiros estavam em pior situação do que quando a consultoria chegou. Agora, a consultoria passava a ser mais um problema financeiro.
Será que estou caricaturando ou exagerando? Talvez. Há consultorias boas, mas não são muitas. E as que complicam o simples são as piores. Jack Trout, um americano que entende de administração, escreveu recentemente o livro “O Poder da Simplicidade” (The Power of Simplicity, ed. Mc Graw Hill) que diz, entre coisas, mais ou menos o que venho dizendo há anos.
Segundo ele “é tão difícil ser simples, porque as pessoas têm medo de parecer pouco inteligentes se agirem dessa forma… Nós ficamos impressionados pelas coisas que não conseguimos entender”. Ora bolas, nós não devemos ter medo de ser simples. Caso você não entenda, pergunte, anote, pesquise, estude. Mas, no final faça do seu jeito. Quem dorme com a sua consciência e os seus problemas é você. Você é que paga as suas contas ou, na situação atual, pagará as contas vencidas e a vencer.
O segredo de qualquer negócio é gastar menos do que fatura. A fatura pressupõe um pagamento futuro que, às vezes, custa a vir ou não vem. Gaste pouco, fazendo o máximo. É mágica mesmo e o nome é trabalho duro, parcimônia, simplicidade, modéstia, cuidado com as despesas, sejam grandes ou pequenas e não deslumbrar. Deslumbrou, cuidado.
A outra história dos modismos é “encantar o cliente”. Cliente não é cobra nadja para ouvir música de um encantador de serpentes. Cliente é para ser bem servido, respeitado e tratado com honestidade e atenção. Encantar lembra enfeitiçar que, em linguagem vulgar, pode ser traduzido por picaretagem.
Cuide do dia a dia de sua empresa e pare de inventar. Em resumo, vivendo no Brasil de hoje planejar a longo prazo é como tentar descobrir o nome da futura namorada do Bill Clinton. Nem ele sabe.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/04/1999.

