CONSELHO PEDIDO E, TALVEZ, NÃO ATENDIDO – Jornal O Estado

Alguém acredita que eu possa dar conselho? Não estou seguro. A pessoa que me pede está perto de 30 anos, fez um bom curso superior e ainda não conseguiu trabalho que o animasse a enfrentar o mundo real. Resolveu, por sua conta e risco, virar “concurseiro”. Perguntei: qual a área? Tudo o que aparecer.
Não sei se é por aí. Cada um deve saber das suas habilidades e suas capacidades. Participar de um concurso é acreditar em duas variáveis: seus conhecimentos e o seu comportamento quando das provas. Sem falar nos concorrentes.
Sei que os cursinhos ou “cursões” dão dicas para driblar o estresse, mas cada um convive com seus grilos, seus medos e suas idiossincrasias, que se manifestam independente de suas vontades.
Os concursos são uma espécie ampliada do ENEM com alto nível de generalizações e complexidades, múltiplas matérias. Eles dispersam o foco de qualquer profissional. Assim, quanto mais tempo passar como concurseiro, menor será a sua chance de conseguir um emprego na área em que se formou com razoável índice de rendimento acadêmico.
Há um instante em que você deve perguntar para o espelho: o que estou fazendo? Marcando passo ou fugindo das entrevistas de emprego com várias fases. Por outro lado, sabe-se que muitas pessoas da sua faixa de idade são adictas (viciadas) em redes sociais e em “rodinhas” presenciais que tomam tempo dos estudos.
Ainda não falei da vida pessoal, das cobranças dos pais, dos namorados ou parceiros. Dia desses, encontrei, em restaurante, pessoa que havia conseguido passar – e ser chamada – em um bom concurso e estava exultante. Tinha razão. Cumprira o prometido a ele mesmo.
Uma pergunta direta e talvez incorreta: você acredita nos seus conhecimentos ou está frequentando aulas sem motivação? Não basta a presença física. É preciso aquela vontade incomum, a que faz um velocista terminar uma corrida mesmo que os músculos estejam fatigados. No seu caso, entretanto, não são músculos, mas neurônios, sinapses e a capacidade de memória para transformar as informações em conhecimento, sem o qual não vencerá os focados somente nesse objetivo.
A vida adulta não é o prolongamento da juventude. Ela é o portal das cobranças que vão existir ao longo de todo o seu percurso. Estou quase terminando e não sei se ajudei a você ou não.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/04/2016.

Sem categoria