Um conservatório é local destinado ao estudo das artes, especialmente a música. Aqui em Fortaleza, há 72 anos, um grupo de amantes das artes, encabeçado pelas pianistas Ester Salgado, Branca Rangel e Nadir Parente resolveu criar um conservatório. Nessa época, 1938, já existia em Fortaleza uma Sociedade de Cultura Artística, com nomes como os de Paurilo Barroso e Alberto Klein. Eles incentivaram a ideia da criação do conservatório. Escolheram para a denominação um nome de referência, Alberto Nepomuceno. Nascido em Fortaleza, em 1864, cedo a sua família se mudou para Recife e já em 1880, com a morte do pai, passou a ser o arrimo da família, dividindo-se entre a função lúcida e necessária de tipógrafo e a lúdica de professor de música. Foi amigo de Clóvis Beviláqua, Farias Brito e Tobias Barreto que estudavam na tradicional Faculdade de Direito do Recife. Nepomuceno parara de estudar, simplesmente para manter a família. De sua amizade com Tobias Barreto surgiu o interesse pelo estudo da filosofia, da língua alemã e tornou-se defensor declarado da abolição da escravatura e da causa republicana. Já em 1885, Nepomuceno se muda para o Rio de Janeiro para aprender mais. Lá, reativou os estudos de piano no Clube Beethoven, logo vindo a ser professor da casa. Machado de Assis, por acaso, era bibliotecário do clube. Nasce aí o interesse de Nepomuceno pela literatura brasileira. Até foi parceiro em composições musicais com letristas como o próprio Machado, Coelho Neto e Olavo Bilac. Sua inquietude e desejo de aprimoramento, o levaram à Europa em 1888, estudando com grandes mestres em Roma e Berlim. Na volta, em 1894, passa a ensinar no Instituto Nacional de Música. Sua obra é vasta e inclui música dramática, orquestral, câmera, instrumental, vocal e sacra. Assim, o Conservatório de Música Alberto Nepomuceno nasceu com a bênção de um nome consagrado, de origem simples, como até hoje o é. O duradouro e encantador sonho da maestrina Mirian Carlos, sua dirigente maior, completou anteontem, 26 de maio, 72 anos de dura e profícua vida. Sou testemunha há anos da batalha imensa dessa professora e de seus inúmeros companheiros musicistas para manter viva a chama que bruxuleia, como um diapasão. Hoje, sexta, às 19.30h, haverá o encerramento de uma semana de atividades musicais comemorativas dos 72 anos do CMAN que teve destaques como o Projeto Ensaio, recital de Pedro Bruin, concerto/homenagem a Alberto Nepomuceno com a regência de Vasquen Fermanian da Orquestra de Câmera Eleazar de Carvalho, e festival de piano em conjunto. O Ceará precisa, certamente, manter bem abertas as múltiplas salas de aula do Conservatório Alberto Nepomuceno instituição que transforma crianças, jovens e adultos em amantes ou profissionais da música em suas várias formas e manifestações, mas, especialmente, os torna sensíveis à cidadania que sempre desponta nas almas dos são tocados pela mágica dos sons encadeados.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/05/2010

