CONSIDERAÇÕES, A PARTIR DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS – Jornal O Estado

Não há um manual, um rito ou qualquer ensaio a orientar alguém desejoso de entrar em um grêmio literário, seja ele a Academia Brasileira de Letras- ABL, as suas congêneres estaduais e as muitas outras, de naturezas diversas, existentes às centenas por este país afora. Cada entidade possui vida própria com estatuto e regimento interno. Neles, há tempos definidos. O nojo, pela morte do acadêmico que deixou a vaga; o período da inscrição, em que todos devem apresentar memoriais com os seus currículos de vida, as suas produções significativas e as razões de suas pretensões; o contato formal com os eleitores, quando alguns se precipitam e não cumprem o tempo do nojo, a incomodar os colegas do morto; o exame dos méritos dos candidatos, por uma comissão de acadêmicos e, enfim, a eleição.
As regras não são universais, são particulares e adaptadas da velha Academia Francesa, fundada pelo Cardeal Richelieu, em 1635. Após a Revolução Francesa – e o costume permanece –o governante da França é o Patrono da Casa que tem como dístico: “Ad l’imortalitaté”, ou à imortalidade.
Semana passada, a ABL elegeu Rosiska Darcy de Oliveira, com 23 dos 38 possíveis votos. Ela traz 69 anos, oito livros, sendo os mais comentados: “A Dama e o Unicórnio”, “Elogio da Diferença”, “Chão de Terra” e “A Natureza do Escorpião”. Possui formação em direito na PUC-RJ e, posteriormente, de professora de letras, na mesma universidade, no curso de doutorado. Foi jornalista de batente no Jornal do Brasil e TV-Globo. É articulista do jornal O Globo e, além disso, vivenciou o feminismo em sua fase áurea, escrevendo ensaios sobre as razões e a oportunidade desse movimento, originado nos anos sessenta.
Ela ganhou dos poetas Antonio Cícero, seis votos, e Marcos Accioly, cinco votos. Sobre a sua candidatura, é preciso dizer ter sido respaldada pela atual presidente da ABL, Ana Maria Machado, e Cleonice Berardinelli, reclamantes da existência de apenas quatro acadêmicas em universo de quarenta. Nélida Piñon, ex-presidente, referiu: “mesmo com a entrada dela, a Academia fica devendo à mulher maior presença, não resgatou ainda a escassez. Há grandes mulheres que certamente ingressarão”.
Para o acadêmico Antônio Carlos Secchin ela mereceu ganhar em razão de sua biografia. Diz ele: “A biografia dela nesse campo do feminismo é mais visível e bem mais ostensiva do que como escritora, mas isso não é um demérito… o seu trabalho multifacetado, dentro dessa linha do feminismo, mas é importante ressaltar e respeitar o nível estético da escrita da Rosiska”. E conclui: a eleição “é um tabuleiro muito complexo, e certamente o resultado da campanha mais bem feita se traduz em números”.
Estas minhas considerações são frutos de leitura de sites, blogs e jornais, especialmente a FSP. Não sei se o que escrevi faz sentido para a maioria dos leitores. Espero, pelo menos, que saibam como acontecem as eleições acadêmicas a exigir dos candidatos postura veraz e prova de sua vida literária. Não basta escrever livros, mais importantes são a qualidade e a linguagem culta adotadas, sua repercussão nos meios literários e a maturidade existencial do candidato. As academias não devem se prestar à formação de currículos, mas coroar a vida de quem já os possuem.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/04/2013.

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