CONSTATAÇÃO ÓBVIA – Diário do Nordeste

Cidade é, literalmente, lugar onde vive o cidadão, muito embora muitos que nela habitam não possam ser considerados como tal. Cidadania pressupõe pleno gozo de direitos civis e políticos. Aqueles, portanto, que se obrigam a morar em condições subumanas, em encostas de morros, vias públicas ou zonas de risco, sem emprego de onde tirar o sustento e a dignidade, dependendo de favores ou mendicância, certamente não podem ser considerados cidadãos. Catadores de lixo e puxadores de carroças não estão, certamente, exercitando os seus direitos civis. O que se vê, todos os dias, em cada esquina deste Brasil urbano, além dos flanelinhas assumidos, são crianças com malabares, ambulantes, mendigos e as carroças pachorrentas cheias de materiais descartados pelos “privilegiados”. Basta de empulhação, de negar o óbvio e mistificar o futuro de pessoas que não sabem o que é esperança. Elas sobrevivem de forma instintiva e vegetativa, tirando do nada o seu sustento e, se se marginalizam, é porque não possuem habilitação para quase nada. Por ser tão baixa a qualidade do ensino no nível médio, as empresas, em sua maioria, empregam em seus escritórios e para funções simples, pessoas com formação superior. É claro que nas indústrias os operários não precisam da educação formal, mas carecem de treinamento profissional para lidar com máquinas e instrumentos mecatrônicos cada vez mais sofisticados, exigindo qualificação continuada. O avanço tecnológico é veloz e resulta em obsolescência e redução de mão-de-obra, de insumos e de custos fixos. A ordem é produzir mais com menos. Por outro lado, o Estado cobra tributo de tudo. O preço final de um bem ou serviço sempre dobra por conta da energia elétrica, carga tributária, obrigações sociais e afins. Muitos dos que nos representam nos parlamentos gastam o pouco tempo que dedicam às suas funções públicas em busca de verbas para prefeitos que os elegem, a barganhar votos por cargos em comissão e empregos terceirizados e dar entrevistas ocas. Por esta razão é que, entre tantos, cacique mora e domina Estado de mais baixo índice de desenvolvimento humano, é votado noutro, tão miserável quanto, e aceita mais do mesmo encargo com resignação.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/02/2011.

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