CONSTRUÇÃO – Jornal O Estado

Meus queridos, foi linda a cerimônia. Ela teve a marca de vocês. A hora, o local, as músicas, as lágrimas, os risos, as crianças, as famílias e poucos amigos. Ela foi tal como vocês queriam e a fizeram. Ainda bem. É preciso saber querer, mesmo sendo diferente do usual. Cada um tem sua passagem e o voo do sonho não tem limites. Os seus anseios nunca serão iguais. Somos semelhantes, mas distintos. Estive, nestes últimos tempos, pensando em vocês dois. Muito mesmo, mas sou esse ser estrangeiro no meu bem querer, sentir e dizer. Queria ter tido com vocês uma conversa sem peias. E, no meu pensar, teria sido à hora do pôr-do-sol, sob a tocha avermelhada assomando lá da Barra. Eu teria dito da minha alegria em vê-los de mãos dadas na construção do seu futuro. De ver, em vocês, o sorriso fácil dos amantes e repassaria, talvez, algumas experiências. Enfim, o século virou e nos mostrou cada um em seu ninho e, agora, de forma ousada, vocês vão construir o seu. Não apenas com estrutura, adornos, mas, especialmente, com sentimentos, fazeres e deveres. A vida, queridos, nos experimenta a cada dia. Quase sempre, não temos sabedoria para colher as lições surgidas das formas as mais singulares. Erramos, por humanidade. Se vocês me pedissem para dizer quais argamassas são necessárias para a construção de uma vida em comum, falaria primeiro em compartilhamento, em troca de energia, cumplicidade, adesão e identidade de linguagem. Depois, aí sim, falaria de amor. Há, acreditem, pessoas com amor comum, mas sem saber compartilhar a vida, com todas as suas sutis nuances, medos, falhas, faltas, alegrias, circunstâncias, disputas, ciúmes e palpite de terceiros. Depois, falaria no trabalho árduo, consciente e contínuo a dignificar o ser humano e o torná-los, por sua conta e risco, senhores de seus próprios destinos. Diria também: sejam pacientes e cuidadosos um com o outro, especialmente nos detalhes. Não se tranquem em silêncio quando os dissabores ocorrerem. Abram as veias dos seus corações e não tenham medo de sangrar. Há sempre suturas fortes onde existe amor. O não entendido, o não visto ou o não explicado podem ir se transformando em ressentimentos e isso só desabrocha sem a crença no diálogo. Enfim, peço desculpa pelo alinhavado, mas isso é coisa minha, especialista em erros e alguns acertos. Não acreditem na perfeição do ser humano. Juntos, tenham fé no amor, no trabalho, no estudo continuado, no riso a dois, na esperança, na tolerância, na prudência, na compaixão e na confiança. Sejam felizes. Contem comigo, sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/01/2009.

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