CONVERSA AMIGA – Diário do Nordeste

Serão todos sempre os mesmos? Cremos que muito muda com o correr dos passos e descompassos. Somos sempre diferentes no contato com pessoas. Uns são alegres, comunicativos, mas, esses não se apercebem da essência do outro. Como diria um amigo, procuram “tangenciar problemas”. Outros, mais fechados, críticos, entretanto, detendo-se na procura de saber do outro.
Os relacionamentos são, muitas vezes, minados. Minados por familiares, amigos e os falsos-amigos, essa grande comunidade semi-invisível existente em qualquer sociedade. É um processo de envenenamento considerado natural, pois comum nas relações ditas sociais. “Eu te protejo, a troco de nada”. A maioria das pessoas gostam de ter amigos, colegas e familiares disponíveis, solitários, livres, mas não se apercebe que a solidão do outro é um passo para desarranjos de todas as naturezas. Assim, vão sendo alvos de comentários, suspeitas, discussões e até de cerceamento do encontro a dois, dádiva ou característica positiva, graças, quiçá, ao mútuo bem-querer.
Estar a dois passou a ser interpretado como isolar-se, casmurrice, ciúme e abandono dos outros. Não é bem assim, o encontro permanente é o segredo do relacionamento, os que se desnudam como pessoas, esquecendo as `personas’ assumidas ao longo das vidas.
Enquanto alguns procuram em análises, livros, escritos e filmes as respostas que a vida não lhes deu para entender suas próprias idiossincrasias, outros permanecem no ilusório mundo dito fashion, oba-oba ou na busca estética.
Essas considerações superficiais são meras convicções pontuais a merecer exame e crítica, especialmente quanto a parentes e amigos. Àqueles que acessam os outros pessoalmente, por telefonemas ou quaisquer outros meios. Racionalmente, deve-se admitir existir exagero no direito a essa intromissão. Não sabem eles como alguém estar, com outrem, além deles. Identificados e solidários. Querem mudar, conscientemente ou não, o d de solidários para o t de solitários. Permitir ou não, essa a façanha que cabe a cada um. São fortes, se solidários? Terão gente ao lado, se vulneráveis, fraternos e solitários?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/08/2010.

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