Participei de uma travessia literária com a escritora e jornalista egípcia Mona Anis, na “Tenda do Escriba” da 7a. Bienal Internacional do Livro, em Fortaleza, Ceará. Travessia literária é uma oportunidade que se dá a dois escritores para que troquem ideias durante determinado tempo, com a intervenção de um(a) mediador(a), sobre suas obras ou sobre o contexto sociocultural em que vivem.
No caso específico dessa minha travessia, poderia dizer que estava surpreso com a escolha do meu nome para debater com a escritora Mona Anis, uma das expoentes do pensamento cultural contemporâneo do Egito e, por extensão, dos países árabes do Oriente Médio. Mona Anis é editora de cultura de um jornal egípcio editado em inglês, Al-Ahram, e tem uma larga vivência acadêmica, a partir de um doutorado na Universidade de Essex, na Inglaterra.
Suas experiências acadêmica e jornalística, especialmente quanto ao que pensa, como vive e reage o povo árabe, espalhados em vinte países, que vão do Marrocos até o Iraque, têm dado origem a convites para que possa expor suas ideais sobre as questões que causam tanta repercussão na mídia internacional, como agora entre o exército israelense e a facção Hezbollah, no sul do Líbano.
Conheço o Oriente Médio apenas de passagem e pouco sei da cultura árabe, tão rica e com fundas raízes na península ibérica, da Idade Média até o Renascimento, época em que ocuparam Espanha e Portugal, influenciando toda a sua linguagem, pensamento, arte e arquitetura que, por força da colonização portuguesa, nos foram, em parte, repassados.
Entender, o que não é fácil, todo esse amálgama foi o que procurei, especialmente nas perguntas que lhe fiz sobre o que havia mudado no mundo islâmico para a mulher que adentra o século XXI. Como ela entendia as justificativas do grupo Al-Qaeda sobre os atentados aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001? Que perspectiva admite existir para a solução do conflito entre palestinos e judeus? e quais as consequências da ocupação americana no Iraque e como ficará aquele país quando essa ocupação findar? em razão de tantas as correntes de pensamento que dividem a sua classe política e os religiosos.
O que deve ter ficado de positivo nesse encontro foi o despertar da minha curiosidade sobre a vastidão de literatura, que se encontra sobre o que se convencionou chamar de “orientalismo”, no dizer de Edward W. Said, autor do livro “Orientalismo, o Oriente como invenção do Ocidente”.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/09/2006.

