“Os tempos são três: presente do passado, presente do presente e presente do futuro. Esses três tempos estão na minha alma e não os vejo em outro lugar. O presente do passado é a memória; o presente do presente, a percepção imediata; o presente do futuro, a espera”. Santo Agostinho
Os tempos são outros. Sou do século passado. Isso é bom ou mal? Depende. Posso falar dos erros cometidos sem medo. Crédulo, confiei em gente pela aparência. Confiei no fio do bigode e descobri que havia sido raspado. Confiei em pessoas de palavras fáceis, papos firmes e amigos recentes de infância. Não deu certo.
Considerei que casais de mãos dadas em público possam demonstrar que o varão é boa gente. Quase nunca o é. Aparências são quase sempre enganosas. Irmãos diferem. Gente que, por qual razão, faz festas em suas casas está, no mínimo, correndo risco. Casa é lugar sagrado, não é “show room”. Só deve entrar quem for achegado. Isso deve começar com os amigos dos filhos. É bom saber quem são eles. Nada de moralismo, apenas precaução, neste mundo em que quase todos são estrelas no Face book.
Não viva de aparências. Seja você, tal como se sente confortável, não finja para agradar. Pode até dar festas, se o dinheiro comportar. Entretanto, só convide os que iriam – ou irão – visitá-lo se estivesse com problema ou doente. Não misture amizade com interesses. Quase nunca acaba bem. Informe-se o mais que puder, antes de tomar uma decisão de compadrio.
Os que pedem ajuda, passada a dificuldade, esquecem o fato ou desaparecem. Um amigo disse-me algo assim: abriguei duas pessoas mais velhas a precisar de pouso. Expus-me, de graça. Uma das duas agradeceu-me, de leve. A outra fazia de conta que não me via. Pois é.
Assim, não se encante fácil, aprenda a ver sinais e diferenças. Seja cuidadoso e não se exponha de graça. Fique na sua. Não queira ser o centro de atenções, fique no cerne da sua razão. Imagine que a razão é uma espécie de parafuso que falta à emoção. Os intuitivos ou os apressados, mais que os racionais, levam bordoadas. Durma com a intuição, acorde com a razão.
Lembrete: amanhã será o Dia da Criança. Faça-se criança por um dia. Entranhe-se, converse com os pequenos de forma simples e agradável. Você já foi um deles. Brinque com eles, não há perigo. Pense, faça e sorria.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/10/2013

