O jornalista e escritor carioca Carlos Heitor Cony completou 80 anos. Lúcido, capaz, irônico, irreverente e lido. Os números redondos são importantes, devem ser lembrados e comemorados, pois definem épocas diferentes nas vidas das pessoas. Cada época com seu encanto e dores. Sou leitor cativo de Cony desde a minha juventude. Ele é referência do jornalismo brasileiro, expoente da crônica e consagrado palestrante.
Há dois fatos na vida de Cony que considero importantes, pelo menos na minha visão. Um é o conteúdo de sua vida como jornalista combativo e temido, o outro é a obra literária que criou, parecendo sem pretensões e que o consagrou. Destaco, entre tudo o que escreveu, o livro “Quase Memória, quase romance” em que fala de sua vida, da infância suburbana, do seu tempo de seminário com a falta de fé inata, família, do amor extremado ao pai e, como suspense constante, a existência de um pacote atado por barbante que nunca é aberto até a última página da história.
Em 28 de fevereiro de 1999, escrevi uma crônica aqui neste mesmo local do Diário do Nordeste, com o título “Eu, filho. Eu, pai. Eu, filho”, e a iniciei assim: “Todos nós, com o tempo, vamos ficando revisionistas. O que era, passa a não ser mais daquela forma, as tintas tomam tons amenos e a acidez das críticas perde as peremptoriedades”, e aí me refiro a Machado de Assis em Dom Casmurro.
Nessa crônica de 99 falo de autores brasileiros, Machado de Assis, Zuenir Ventura, Érico e Luiz Fernando Veríssimo, mas o destaque é Cony. Lá pelo meio, digo: “Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista, a quem todo leitor de jornal conhece ou deveria conhecer, resolve revisitar as relações com o seu pai, jornalista que quase deu certo, já morto. E o faz com olhos de um homem maduro, já setentão, o que lhe permite sempre dourar a pílula e transformar um pai comum, sem grandes feitos e muitos defeitos, em um tipo que vai nos apaixonando com seus quase acertos, seus projetos inacabados, a preocupação com a educação dos filhos, o microcosmo do seu mundo suburbano e uma mitomania que se transforma em folclore”.
É este homem simples e grande, que soube e ainda sabe ser filho de pai morto – e que chorou por escrito com a perda de sua cadela de estimação – que está merecendo os nossos parabéns pelo que nos deleita e ensina. Cony.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/03/2006.

