Carlos Heitor Cony é especial. Tinha um grande amor canino. Acompanhei o drama da morte de seu cão em suas crônicas. Ele sofreu e deixou sua dor ser derramada e conhecida. E Cony tem mais de 80 anos. Pelas manhãs, ele dispara a sua sensatez em comentários em emissora de rádio e fala com a história pessoal a seu favor. Mistura e acolhe assuntos que lhe são apresentados de bate – pronto e o faz com a sensatez que falta a muitos. Mas, o que eu gostaria de falar, além da pessoa, do jornalista, escritor e acadêmico Cony seria sobre suas preferências literárias, a pedido de um amigo. Ele diz que “livros há que gostaria de reler e – infelizmente – já não há tempo nem modo para esse tipo de prazer, substituído por outros razoavelmente inconfessáveis”. Ao deixar a palavra inconfessáveis no ar, Cony respira vida e deixa que o leitor interprete como bem entender. Ele faz mistério com o prazer e isso cria o clima para que se continue a leitura. Para ele “se alguém me perguntasse pelos livros prediletos, a resposta, seria outra. O que o amigo pede é quais os livros que ele gostaria de reler. E ele responde: “Incluiria, como mandam os figurinos literários, os ensaios fecundos, os grandes romances formais, o Gibbons em não sei quantos volumes, o Moliére, o Racine, o Dante, Montaigne, Flaubert, enfim, os autores sempre citados por todos. Mas incluiria também o Arquibaldo Benjamim Xavier, autor de um alentado opus intitulado “As asas de Ícaro dos Impostos”. Eu nunca ouvi falar de Arquibaldo. Você já ouviu? Penso que tem gozação com a palavra impostos ao final do título. Depois de muitas filigranas, Cony, como ateu convicto, apesar de ter estudado em seminário, fala na preferência, um largo trecho do Evangelho Segundo Mateus. Não cita, entretanto. Que parte seria essa? Abri São Mateus e saí procurando, o que penso ter encontrado diz: “Vós sois o sal da terra. Se o sal perde seu sabor, como tornará a ser sal? Não serve mais para nada; é jogado fora e é calcado aos pés pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada no monte”. Se essa for a parte – quem sabe – Cony estaria falando das favelas que cercam o lugar onde mora?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/12/2010.

