Amigo liga e reclama do cansaço. Fala da fadiga em dirigir para chegar ao trabalho. Reclama dos pedintes, dos flanelinhas, dos manifestantes, dos desvios, das motos e do ar condicionado quebrado, o que lhe dá duas opções: baixar o vidro e ficar inseguro ou subir o vidro e torrar a paciência com o calor. Liga o rádio e só ouve desgraça. Desliga. Sugiro que mande consertar o ar condicionado do carro. Ele fala alto: como, se não tenho tempo.
Coloca um cd e lembra que já o ouviu tantas vezes que sabe até a sequência das músicas. Uma delas é de Roberto Carlos. Está cheio das notícias com os pré-candidatos às eleições de 2014 e com a polêmica sobre a publicação de biografias não autorizadas do dito Roberto Carlos e das posições do Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. Resume para mim o seu pensamento: as pessoas passam mais da metade da vida querendo ser famosos ou conhecidos e, em seguida, rejeitam o assedio, a crítica sobre detalhes de sua vida privada que preferem esquecer ou não tornar público.
Uma ligação está na espera e peço desculpas para desligar. Zanga-se comigo. Respondo com o meu resto de resignação: retornarei. Atendo o novo chamado. A vida vai nos mostrando situações comuns às das outras criaturas. Há fatos e situações, mesmo administrados, que permeiam a nossa cota de resiliência. Todos passamos por situações semelhantes. Vivemos acossados por obrigações e somos instados a cumprir até três expedientes diários. Cobram-nos quando, exaustos, deixamos de ir a algum compromisso social ou de classe. Que jeito.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/11/2013

