COSTA MATOS E O SEU RIO – Jornal O Estado

Não registro intimidade em minha relação com o poeta José Costa Matos, mas não me escuso de dizer que havia uma sutileza bilateral de tratamento, sem que isso fosse supérfluo, mas partida de uma identidade que foi surgindo pouco a pouco. Nascido em Ipueiras, terra que também concebeu Gerardo Melo Mourão, veio ter com os costados em Sobral e, em seguida, Fortaleza. Costa Matos foi ocupando espaços pela vida, tratando de ser gente, e conseguiu o feito profissional de integrar o Ministério da Fazenda e ser professor da Universidade Federal do Ceará. Para mim, como presidente da Academia Fortalezense de Letras, da qual ele era, com justiça, Sócio Honorário, o que resplandece para a posteridade é a sua vida literária, conquistando uma dezena de prêmios em concursos culturais em vários estados brasileiros. Para o poeta Francisco Carvalho: “Costa Matos é nome bastante conhecido nos meios literários de nossa terra, onde desfruta do maior prestígio entre as figuras do primeiro plano da intelectualidade cearense. No campo da poesia, tem-se distinguido pela publicação de algumas obras que lhe valeram o reconhecimento da crítica. É o caso, por exemplo, do livro de poemas ‘O Povoamento da Solidão’, colocado em primeiro lugar no Grande Prêmio Minas de Cultura, fato que teve excelente repercussão em todo o país”. Outro poeta, também seu colega da Academia Cearense de Letras, Carlos Augusto Viana, expressou para mim, o seguinte: “Costa Matos era um poeta lírico que desenvolvia, predominantemente, duas temáticas: a metafísica e a ontológica. Ele era um dos raros remanescentes no Ceará da corrente neo-simbólica’’. Foi assim que Pedro Henrique Saraiva Leão, presidente da ACL, falou: “O professor Costa Matos era um dos homens cultos do Ceará. Cultivava a simplicidade que falta a muitos. Era lido, cristão, probo e de fácil comunicação”. Em 02 de setembro de 2007, Costa Matos, escreveu sobre a Utilidade da Poesia no jornal Diário do Nordeste. Ele diz: “Pergunta-se muito que fazem os poetas no mundo. Expressão da vida, a poesia é também indefinível. Integra a literatura e esta é uma das artes… Mas formam religiões aqueles que têm o poeta como ser divorciado da realidade. Não se lembram de que realidade, também, está entre as nossas incompetências de conceituação. Cada pessoa tem as suas peculiaridades de percepção do real”. A minha percepção do real é que o cidadão Costa Matos, pai de família, professor e acadêmico, soube equilibrar-se na balança do viver e construiu um rio subterrâneo de admiradores e amigos que agora pranteiam sua partida e sabem, como ele poetava, que “a vida não dá presentes. A plenitude humana é trabalho de mineração, com galerias cavadas no infinito”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/03/2009.

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