CULTURA E PENÚRIA – Diário do Nordeste

A maioria das pessoas não tem ciência da situação de penúria das entidades – privadas, especialmente – que cuidam da difusão da cultura no Brasil. Exceção é feita à Academia Brasileira de Letras – com renda imobiliária própria – e algumas poucas. As demais, representando mais de 95% da ação cultural brasileira, não possuem sequer sede, equipamentos e orçamento, vivendo das minguadas mensalidades de seus consócios que, muitas vezes, premidos por outros compromissos, deixam de pagá-las. As leis de incentivos à cultura, sejam municipais, estaduais ou federais, precisam de mudanças que lhes deem agilidade e capacidade de resolver essa situação que se agrava a cada dia. A figura do Mecenas, aquele que disponibiliza valores para auxiliar a cultura em suas várias formas, está cada vez mais difícil. Tentando procurar soluções, foi realizado na semana passada, em São Paulo, encontro com foco nas “Perspectivas do Investimento em Cultura”. Esse encontro aconteceu na Pinacoteca de SP, a mesma que teve agora quadros roubados por conta de ineficaz estrutura de vigilância. Do discutido ficou o consenso de que a Lei Rouanet, que destina recursos mediante projetos, precisa de reparos, pois não há gerenciamento eficaz dos processos apresentados e tampouco critérios na escolha e ação dos “pareceristas”, os que analisam os pleitos em nome do Ministério da Cultura. Duras críticas foram feitas à gestão da cultura nacional. Foi sugerida a criação de um Fundo Nacional de Cultura, o que seria ideal para todos, mas cultura não dá voto. De tudo o que lá foi exposto, sem reservas, ficou claro que essas entidades, sejam academias, institutos, produtoras de cinema, museus, teatros ou outras organizações sociais, precisam parar um pouco e pensar em ter gestões eficazes e outras soluções, não apenas as que passam por contribuições de doadores que, em contrapartida, recebem títulos disso e daquilo. Não há desdouro em revelar problemas, erros e improvisações. O mundo real perpassa o universo da cultura, pede atitudes, ações e soluções que não cabem em filmes, peças, pinturas, esculturas, ensaios, versos e nem na boa prosa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/06/2008.

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