Ainda não arrastei asa para as festas de Natal. Ando meio cabreiro, arredio a muitas dessas comemorações que enchem os estômagos, mas deixam a mente vazia. Vejo as confraternizações como uma coisa boa, mas a palavra “frater” que dizer irmão, vá onde estão os seus irmãos, seja os de sangue ou os de coração, mas não exagere em demonstrações de sentimentos que não nutre.
Há tanta gente se abraçando, mas se tivéssemos um medidor de afeto, um “afetômetro”, talvez as pessoas fossem mais cuidadosas com as demonstrações não avalizadas por sentimentos. Fingir faz criar rugas, provoca halitose, altera a pressão, causa enxaqueca e aumenta os radicais livres, dizem os naturebas.
É claro que não se deve ser ranzinza, muito menos agora. Mas sem essa de falar o que não sente para pessoas que não tem nada a ver com você. Seja cordial, como sabe ser o brasileiro. Mas não fique meloso, derramado, se o seu coração pede recato. Bons modos e educação são uma coisa, babação é outra. Guarde-se para quem realmente gosta, os que conhecem você, sabem de seus defeitos, carências, limitações, mas o aceitam sem reservas o ano todo.
Para esses vale tudo: cartões feitos à mão, aquele CD, um livro legal que saiu ou uma lembrancinha que mostre a sua atenção. Escolha o que realmente imagina possa interessá-lo. Se ele faz coleção de tampa de cervejas, por exemplo, vá atrás das raras. Se ela só aceita roupa íntima de uma marca especial, procure. Mas, se ela quiser apenas o seu amor ou a sua amizade, melhor ainda, sobrará para comemorarem juntos em um self-service, na festa da família, na igreja, na churrascaria, dividindo um frango, ou no requintado restaurante que você passa o ano todo planejando levá-la e não teve coragem. A hora é essa.
Pelo amor de Deus, não beba em demasia para não virar aquela pessoa chata que muito fala, nada diz, nos enche de perdigotos e amassa a nossa roupa. Pode até beber, ficar alegre, mas sem essa de perder a classe, de “dizer aquelas verdades” que ninguém está disposto a ouvir, muito menos agora. Não conte mais piadas do Bush ou do Bin Laden. Não fale em economia, política, CPI, FHC, dinheiro, não xingue no trânsito. Isso já encheu o ano todo. Tenha imaginação, seja “light” como diz a turma jovem e fique “maneiro”, sem querer resolver os problemas do mundo. Acredite que esta época é mágica para as crianças e renove as suas próprias esperanças. Quando as festas terminarem, aí sim é hora de você cuidar de manter o emprego, não deixar que a empresa vá para o brejo, fazer regime, pagar as contas, mas, por enquanto, é jogar conversa fora ao lado dos que você realmente gosta e, tenho certeza, há pessoas que o adoram, seja você quem for ou onde estiver. Pense em um Natal feliz. Pensou? Então curta, a vida é breve.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/12/2001.

