Imagine Fortaleza no começo dos anos quarenta. 180.000 habitantes, pacata e brejeira apesar da guerra que se iniciara no mundo e só terminaria em 1945. Havia festa na cidade. No adro de uma igreja, novena e singela quermesse aproximaram, pelas artes sutis do encontro, dois jovens bem apessoados. Olharam-se de forma extremada. Esqueceram os demais. Ali começava, sem que soubessem, uma história que eclodiria em muitas outras vidas. Ele, recém-fugido – a pé- do Seminário de Canindé, dos Capuchinhos Alemães de São Francisco, seu onomástico. Ela trabalhava no laboratório do Dionísio Torres, seu padrinho de batismo, onde se fazia perfumes. De certo, ela cheirava bem. Enlaçaram-se com a coragem e a garra dos que, nada tendo, dispõem-se a selar pactos de amor e luta. Pois foi assim. Ele, Francisco Bezerra de Oliveira, ainda sem profissão definida, disse ao pai que iria casar e pediu sua bênção. O pai, João Soares de Oliveira, atônito, teve que aceitar a decisão do quase menino que iria desposar a jovem Margarida. Casaram-se e, para amansar o desencanto do pai, prometeram que dariam ao primeiro filho, se homem, o seu nome. E aí nasce João Soares Neto, o primeiro filho desse casal destemido.
Hoje, neste 25 de fevereiro de 2014, morreu Margarida Caminha de Oliveira, a jovem que tornou-se mulher, mãe, avó e bisavó. Meu pai faleceu, de infarto, em 21 de novembro de 1991. Daí para cá, ela reinava soberana nos jardins e na casa da família, curtindo – pelo resto da vida – o casamento que durou 51 anos. E dessa união nasceram João, José, Francisco, Maria Célia, Maria Simone, Liduína, Luiza Helena, Ricardo e Pedro Henrique. Todos estudaram em escolas privadas, alcançaram formação universitária, viraram independentes, têm famílias constituídas com filhos, e filhos dos filhos, netos e bisnetos de d. Margarida. Ela nunca deixou de impor limites a todos, puxar as orelhas de cada um, nos tempos e ocasiões devidas. Não era “melosa”, tinha um jeito sincero de abrir sua alma e não queria depender de ninguém. Apenas da d. Zilmar, servidora e amiga, com quem conviveu por décadas.
Agora, ela é saudade, a lembrança entranhada de ensinamentos e sabedoria. Certa vez, em aniversário dela, já viúva, pediram que desse a primeira fatia de bolo a quem mais amasse. Virou as costas, faca em punho e, minutos depois, eis que aparece com várias partes do bolo em um grande prato, servindo a todos. Postura retilínea, sobranceira e digna no seu modo cristão e simples de viver. Leitora atenta de jornais, rejubilava-se por não precisar, financeiramente, de nenhum filho para viver. Havia amealhado para o futuro, este que sempre chega.
Nesta hora, meio confuso, ainda sentindo o calor de suas mãos no corpo inerte ao meu lado, rendo homenagens à sua dignidade, inteireza, liderança aquietada, caridade, religiosidade provada e sentida. As lições que recebemos deram asas para que nos tornássemos cidadãos do mundo, sem medo de atravessar fronteiras rumo ao desconhecido. Seu sangue corre em veias por outros países.
Mais não digo, pois o que escrevo talvez só interesse a mim e à nossa família, mas sintetizo na frase de F. von Schelegel, escritor alemão, o meu olhar sobre d. Margarida, em seus 94 anos de vida: “Apenas em torno de uma mulher que ama pode formar-se uma família”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/02/2014.

