É fim de tarde. O avião sobrevoa Brasília e lembro da primeira vez que aqui estive. Quase tudo era barro, essa argila avermelhada que, ao contato com a água da chuva, se transforma em lama. Assim, o nascimento da cidade foi na lama. Era tempo de bossa nova, o aeroporto muito precário, quase tudo na cidade era oficial: carros, apartamentos, obras em construção e funcionários vindos do Rio e de outras partes. Placas, muitas placas. E o sonho urbanístico de Lúcio Costa, que muitos ainda imaginam ser de Niemayer, tomava a forma de um grande avião, com um grande bojo ou eixo e duas asas, a sul e a norte.
Era, àquela época, uma espécie de “far-west”, como um “remake” atualizado de um filme de Gary Cooper, todos em busca do ouro. Todos vinham para cá porque acreditavam no Eldorado, no que estava acontecendo e no que imaginavam iria acontecer. Vieram muitos, quase todos ficaram e hoje, neste quinto ano do novo milênio, Brasília é patrimônio da humanidade, pelo inusitado partido urbanístico que recebeu, pelos lindos parques burlemarxeanos e por sua implantação vigorosa e vertiginosa.
O carro passa pela Esplanada dos Ministérios, edifícios retangulares, sem adornos, sóbrios, iguais no pensar do Oscar, mas desiguais na prática de suas diferenciadas verbas, poderes e ações públicas e privadas. Lá está a Praça dos Três Poderes e há uma manifestação popular em suas cercanias. Os outros e são muitos, os não-ativistas, passam ao largo e nem olham para os piquetes, pois isto faz parte da paisagem da cidade-estado, onde tudo se procura e pouco se encontra. Ou melhor, alguns encontram. Abro a janela, o ar rarefeito de setembro se depara com a minha face e há carinho na pouquíssima umidade que me afaga.
Vou em direção ao setor de embaixadas e surge o desfilar de edifícios-nações, à esquerda e à direita, cada qual com seu estilo, mas todos cercados, vigiados, com carros de segurança por perto. Dobro à esquerda, entro em território mexicano, pois piso na Embaixada do México, é festa. Ali se comemora o 194o. aniversário de sua independência, há uma profusão de raças reunidas, latinos, anglo-saxões, africanos, asiáticos, enfim, povos de todos os cantos. Tocam os dois hinos, o Embaixador Andrés Valencia levanta um brinde em nome da luta iniciada por Miguel Hidalgo e seus companheiros, enquanto a noite vai entrando no lago em frente.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/09/2006.

