De repente, saio do trem moderno, executivo – garçons, acepipes e jornais – sóbrio em seus detalhes pertinentes e jogo meu corpo amigo em outro comboio elétrico, velhusco, poltronas simples e gastas. Ar de dever cumprido. É cedo da noite. A vidraça do tempo leva-me em um quase sacolejar para a imersão consciente em outras eras quando a vontade de vir e conhecer me guiara desde o Cais de Sodré até Narvik, lá na calota do norte, com muitas paradas de permeio. Agora, décadas depois, escolho o imprevisto e me visto de jovem sem destino. Cato identidades, fé e fulgores em lugares repassados e novos. Não miro o destino, saboreio o percurso e os nomes das estações mostram que tudo se move. Aqui, uma casinhola com tijolos carcomidos pela infiltração onde a hera descuidada divide a paisagem com a gorda senhora à janela. No pasto, cordeiros se unem para banir o frio e não balir. Ali, a moderna indústria está cinzenta pelo tempo frio e os salpicos das chuvadas não param de cair. Há luz feérica. Trabalham na noite. Operários usam equipamentos de segurança e se aquecem em grossas vestimentas enquanto constroem o futuro, quem sabe, em aço ou tecnologia. Após, um grande pátio abriga milhares de carros novos, encalhados. O compasso muda e cruzamos uma ponte. Do lado esquerdo diviso pela grande janela a berma do rio com a sequência de grandes árvores, troncos pintados de branco, decepadas em suas copas. De lá, vem um dos sobrenomes do meu avô materno e as luzes desaparecem tão logo a curva desponta para afirmar a mudança de rota. Singularidades de pessoas estão no vagão. Quanto mais vejo, menos me entranho. À frente, uma mulher silente de cabelos multicores dedilha um pequeno computador e parece entretida com as palavras não captadas pelo soslaio. Do lado direito, frente a frente, dois casais maduros mantêm conversas trocadas e estranham o que se fala do mais jovem dos três faraós -ou reis- das célebres pirâmides, em Gizé. Eruditos? Não há crianças a bordo. Um bêbado estouvado sobe no instante em que as portas se abrem, em automático, na nova estação. Pede dinheiro e seu hálito é forte. Esgueira-se, fugindo do controle. Descerá na próxima. É costume. Abro os olhos. O sonho acaba na leve câimbra do dedão do pé canhoto.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/02/2010.

