DE UM TUDO – ALMANAQUE CEARENSE DO AUDIFAX RIOS – Jornal O Estado

“Os lugares-comuns, as frases feitas, os bordões, os narizes-de-cera, as sentenças de almanaque, os rifões e provérbios, tudo aparece como novidade, a questão está só em saber manejar adequadamente as palavras que estejam antes e depois”. José Saramago (1922-2010), escritor português.
Audifax e João Rios, pai e filho, formam a dupla que edita, por sua conta, risco e atitude, o almanaque “De um Tudo”, já no número 17,cujo título é escrito assim: De*Um*Tudo traz as cores fortes das camisas tropicaiscom as quais Audifax pisa as ruas da Praia de Iracema e as do centro, sem deixar de bater ponto na sede do Clubedo Bode, presuntivo, talvez realherdeiro psicodélico, anárquico, etílico, armorial, cult, chique e brega da centenáriaPadaria Espiritual, tão obsequiada por fortuna crítica mais apaixonada que conferida.
Assim, o “De Um Tudo” é escoadouro para a torrente de escritores, poetas, contadores de estórias e assemelhados que frequenta, nas noites de sextas e aos sábados, do meado das manhãs ao começo das calorentas ou refrigeradas tardes -dependendo da casta- de um comprido e não tão largo imóvel. O local é, ao mesmo tempo, antiga livraria de linhagem familiar, emergente galeria de arte e escritório, climatizado, multiuso, onde se faz alguma coisa, come-se e bebe-se em boca livre, sabe-se de tudo o que acontece ou o que se inventa na vida mundana, política, cultural, artística e social do Ceará. Na área externa, a calorenta, cada um paga o que consome.
É verdade que o citado Clube do Bode já foi e é visitado por autoridades federais, estaduais e municipais, ministros de tribunais superiores e de eucaristia, acadêmicos da Brasileira de Letras, adversários políticos que ali, eventualmente, se congraçam; jornalistas, escritores, diletantes, aposentados, aspirantes a isso e aquilo, pessoas sérias e, algumas, nem tanto.
Esse templo pagão fica na primeira quadra da Rua Dom Joaquim, logradouro sentido norte-sul, em homenagem ao bispo cearense D. Joaquim José Vieira, morador ali perto, no começo da Prainha, a renovada Avenida Monsenhor Tabosa, onde debulhava o seu terço e preparava homílias entre as paredes arqueadas de tijolo de barro do velho -e ainda aberto- Seminário e da Residência Episcopal.
Voltando ao Almanaque: o número 17 contém 24 páginas em que figuram: Tarcísio Matos, jornalista e produtor de programa de televisão; Assis Martins, cronista e ilustrador; homenagem a Xico Theófilo, que partiu antes de nós para o porvir; Paulo de Tarso Pardal, professor, escritor e Luthier; Eleuda de Carvalho, jornalista e professora de literatura; Raymundo Netto, escritor, design e editor; Airton Fontenele, pesquisador de futebol, torcedor do “Fortaleza”e escritor; Luizinho Ferreira, fotógrafo veterano; este escrevinhador; Edmar Carneiro, santanense e aposentado; Dimas Carvalho, poeta, prosador, protagonista e contador de histórias cabeludas.
Há uma bela homenagem a Ariano Caetano, ou Suassuna, com testemunhos de Ricardo Guilherme, ator e diretor de teatro; Ferreira Gullar, poeta e escritor maranhense; Gilmar de Carvalho, professor e pesquisador. Se não estiver cansado, leia ainda sobre a admirável e ribeirinha cidade de Santana do Acaraú, em duas páginas; vá em frente com Narcélio Limaverde, João Lucas Arcanjo, Alexandre Henrique e leia Audifax sobre a Padaria Espiritual, já citada por mim lá no alto da página. O Almanaque fecha com um horóscopo heterodoxo.
Vamos ficando por aqui, não sem antes dizer que o surgimento de um almanaque é fato auspicioso -pela leitura breve, jocosa, séria e agradável-para a cultura local, por sua capacidade de abrigar escritores não optantes por blogs e o mundo encantado/aloprado da Internet.E, de revelar-se, em tempos de seca, a resistência firme dos dois Rios, Audifax e João. Vida longa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/10/2014

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