DE VOLTA À REALIDADE – Jornal O Estado

O carnaval se foi. Ficam o calor, a chuva ou a falta dela. O inverno no hemisfério norte ainda está forte e os mercados de valores oscilam ao sabor dos que o controlam com um simples toque de computador ou telefone. Fevereiro se apresta para terminar com 28, tirando os dias de carnaval, quatro sábados e igual número de domingos, fica quase nada. Virão os meses com 31 e 30 dias e com eles a comunicação que nos é imposta nos elevadores, outdoors, busdoors, celulares e, certamente, em toda a mídia hoje dita tradicional: jornal, rádio e telefone. Já não se fala mais em Zelaya, Bush é integrante da história americana, Clinton dá palestras e acompanha sua mulher, o Haiti dizimado saiu das manchetes e Obama já não é mais novidade. Nós, os que estamos trabalhando e que não entramos em nenhuma escola de samba ou bloco, vivemos agora diante da proximidade de março. Com ele, a chegada de mais recalls (chamadas) de veículos com defeitos ao redor do mundo. Pode ser que seja respeito ao consumidor, mas pode ser também o olhar incômodo do concorrente que aponta a falha e usa clientes como denunciantes. A gripe A ou suína ameaça voltar. Ela fez a alegria de laboratórios ao redor do mundo no ano que passou. Foram bilhões em vacinas. Afinal, os laboratórios não foram feitos para ajudar a humanidade. Eles precisam dar lucros e, para isso, que venham as doenças e os governos de todo o mundo sejam solícitos na compra de grandes estoques que envelhecem em depósitos por falta de logística na distribuição. O que vale é a manchete da compra. A foto da vacinação. O resto que se dane. O Brasil está bem na foto mundial, apesar da favelização de milhões nos cinturões das grandes e médias cidades. Ainda bem que todos são segurados do Sistema Único de Saúde com hospitais plenos de vagas, médicos com excelentes salários, auxiliares descansados, remédios franqueados e a certeza da cura de quaisquer doentes despejados às suas entradas por ambulâncias de municípios que não sabem nada de assistência primária. Ora, os municípios estão a cuidar de coisa mais séria: a eleição que decidirá os governos estaduais, a presidência da república, os senadores e os deputados federais e estaduais. Acham pouco? É muito trabalho para prefeitos que se cansam em viagens às capitais ganhando parcas diárias e lutando pelo bem comum.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/02/2010.

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