DEPOIS DAS ELEIÇÕES, VEM A PRÁXIS POLÍTICA

Desde agosto que o povo brasileiro está envolvido com as eleições municipais. Todos ouviram, leram, viram, meditaram e, muitas vezes, ainda ficaram inseguros. Agora, veio o segundo turno, e parece que muita gente estabeleceu, conforme seus padrões de referência, uma espécie de empática lúcida. A empatia lúcida, nestes tempos de hoje, é votar não só com quem nos identificamos, mas no provável e possível vencedor.
Os eleitores, calejados de tantas decepções, ainda assim aceitam os cenários, as falas, as tramas e as promessas. Mas, hoje não gostam de perder, querem votar no vencedor, mesmo sem entenderem bem o porquê. Não é para isso que as pesquisas existem?
O processo democrático das eleições é uma forma elegante de se prometer mais do que se pode cumprir. Isso não é regra apenas para as eleições municipais. Vale para todas as eleições, até para a badalada eleição americana, tão ciosa de seus padrões éticos e tão vulnerável na sua antiquada forma de colégio eleitoral. O que se viu nos últimos meses, do Acre ao Rio Grande do Sul, foi a tentativa de misturar política com moral. Esqueceram -ou até será que estavam lembrados, mas faziam de conta que não? – os especialistas em marketing que política e moral são assuntos de filosofia. A crueza da realidade do marketing político imagina que a pessoa em si vale pouco, o que conta são os grupos na formação da opinião. A moral é uma questão individual, mas os grupos agem, influenciam e contam. Por tal razão é que as pessoas tentam não se isolar, formam grupos de naturezas diversas, e disso os políticos sabem muito bem como cuidar.
E sabem também, que ao contrário da filosofia e da ciência política, a atividade política não antagoniza o saber e a ignorância, a mentira e a sinceridade. Na verdade, a práxis da política dos candidatos mexe com forças e opções. Os políticos não são testados, são escolhidos, em um combate meio insano de correlação de forças e valores.
Passada a pirotécnica das duas eleições, aqui e alhures, é hora de deixar os marqueteiros em remunerado descanso e partir para a outra práxis, a da arte de governar em meio às restrições legais, institucionais e as promessas que fizeram, sem as quais, poucos teriam sido eleitos. Estes quase dois meses de transição que antecedem as posses serão consumidos na montagem das equipes, no acompanhamento das eleições das mesas das câmaras de vereadores e na elaboração das ações de governo, não necessariamente as que nos palanques bradavam, mas as que a realidade e a urgência clamam. Sorte para todos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/11/2004

Sem categoria