DESERTO E PROGRESSO – Diário do Nordeste

Voltei de uma viagem profunda, embora breve. Foram milhares de quilômetros em pássaros metálicos novos a mostrar que o futuro chegou com a correção e distinção do atendimento multilíngue. Desci na primeira parada, aturdido. Era o esplendor do novo em meio a um calor de frigideira de ovos. Apesar disso, pude conversar com gente de todo tipo, raça, credo e cabeça. Não deixei ninguém de fora. Assim, abordei intelectuais, cientistas, autoridades, ricos, remediados, pobres, religiosos, ateus, jovens e velhos. A todos, fiz a pergunta: o mundo vai acabar? A reação, quase sempre, foi de estranheza. Com exceções, se assustaram, mas disseram que não e, foram mais longe, enfatizaram, cada um a seu modo, que as crises, entre outros fatores, são ainda produtos de vícios do século passado, criadas pela ilusão do lucro fácil, ideologias, dominação político/militar e a simbiose entre as atividades produtivas e a grande especulação financeira. Tudo isso junto, deu, segundo ouvi e deduzi, origem à Grande Depressão de 1929, a Segunda Guerra, a Revolução Chinesa de Mao, passou pelas guerras com a Coréia e Vietnã, a Guerra Fria com a queda do Muro de Berlim e o fracionamento da União Soviética em países de etnias distintas, invasões de países árabes pela busca ávida do petróleo, até o triste 11 de setembro de 2001, a ocupação do Iraque e todos sabem o resto da história. Hoje, mais uma crise envolve o mundo e a mídia internacional se alimenta de desgraças e dos alvitres que desejam plantar e colher. Alheio a esse jogo de xadrez geopolítico, vi brotar no deserto escaldante um planejamento urbano meticuloso e centrado no futuro, ao tempo em que surgem edificações cintilantes, majestosas e até exageradas. Mas, são talvez símbolos metálicos e concretos de uma nova geração de raça ciente de seu poder econômico a fincar raízes estruturais que parecem gritar: vejam, nós não somos o que pensam ou ouvem, somos o que estamos a construir. E não param. Estou falando de Dubai, Emirados Árabes, mas não sou guia turístico. Sou catador da essência do que ouço e vejo, Vi, quem sabe, na grandiosidade, a eloquência silenciosa de vozes não auscultadas sobre seu destino e história de milênios. A viagem não parou aí. Isto foi só o começo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/10/2008

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