Cidadãos nascidas em diferentes décadas do Século XX demonstraram no dia 14 de junho de 2002 que acreditavam no associativismo, na necessidade de trocarem informações que geram o conhecimento e que as instituições, tais como os seres humanos, têm períodos peculiares de formação, iniciação, de acolher os conselhos das entidades consolidadas e tentar, por fim, consolidar-se.
A Academia Fortalezense de Letras nasceu do sonho do jovem José Luís Lira, que via na cidade grande a oportunidade para o seu aprimoramento social e cultural. Estava ele acompanhado de Matusahila Santiago, mulher destemida, senhora de si, a frente do seu tempo, precursora das lutas femininas pelo reconhecimento, não de gênero, mas pela cultura na Casa de Juvenal Galeno.
Eles chegaram a Academia Cearense de Letras-ACL com uma ideia em ebulição e receberam o apoio do poeta Artur Eduardo Benevides, então presidente e hoje presidente emérito das academias ACL e AFL. Igualmente, foram acolhidos por Murilo Martins, honra e glória da medicina cearense, professor, historiador respeitado pela sociedade local que o admira. Artur e Murilo, nos passos iniciais da novel academia, estiveram acolitados por Regina Pamplona Fiúza, diretora executiva sutil e zelosa guardiã da história que se encerra nestes últimos lustros da ACL.
Os 40 integrantes iniciais da Fortalezense pareciam saber o que dissera em 1897, na Revista Brazileira o poeta cearense Antônio Sales:
“Condeno as academias em tese, por estar convencido de que jamais conseguem os fins para que são criadas, quer se trate de ciências, quer de letras”.
Mas, saibam também que no ano seguinte, 1898, a mesma Revista Brazileira, tinha, institucionalmente, mudado essa concepção:
“Nós, brasileiros, somos a incógnita de um amor de muitas raças. Se há uma coisa que nos fará manter unidos, será a paixão literária”.
Tiveram eles a sabedoria de mesclar o corpo social da AFL. Aliaram o conhecimento de pessoas, já acadêmicas, à expertise de outras portadoras de credenciais que os habilitavam ao munus por suas produções jornalísticas, musicais, culturais e literárias nesta cidade de José de Alencar. Talvez eles soubessem o que disse o filósofo e poeta espanhol George Santayana:
“A cultura está sempre entre o dilema de ser profunda e servir a poucos ou popular e tornar-se superficial”.
Agora, passados dez anos, um nada na contagem universal do tempo, a Academia Fortalezense de Letras apresta-se a fazer a contraprova de seu reconhecimento na vida literária e cultural de Fortaleza. E o comprova com uma larga produção literária de seus acadêmicos, num total de mais 120 livros/títulos das mais diversas naturezas, produzidos pós 2002.
O momento é de referir também que esta Fortalezense já disponibilizou para os quadros da ACL os fortalezenses José Teles, Ednilo Soárez e José Augusto Bezerra, que hoje preside o vetusto e glorioso Instituto do Ceará. A par disso, outros quatro dos seus integrantes presidem, respectivamente, a Academia Cearense de Retórica (Maurício Benevides), a Academia da Língua Portuguesa(Vicente Alencar), Academia de Letras Municipais de Fortaleza(Lima Freitas) e a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (Seridião Montenegro).
A par das glórias, os da Fortalezense acreditam que só são dignos de estarem vivos aqueles que cultuam os seus mortos transmudados em lembranças permanentes. Por tal razão, reverenciamos o Mons. André Camurça, orador sacro e intelectual; Natércia Campos, escritora premiada; Orlando Leite, maestro consagrado; Cláudio Pereira, anima e cuore da cidade; Marcelo Linhares, bancário, político e historiador embasado; e José Maria Barros Pinho, poeta, político e paladino.
Somos o que criamos, mas se não o fossemos não teríamos a identidade transmitida pelo cometimento e o arrojo inoculados pelo primeiro presidente Cid Sabóia de Carvalho, brilhante Senador da República, comentarista esportivo e propagador da cultura nas emissoras de rádio e televisão. Bibliófilo e discógrafo inveterado, encanta-se com a plumagem e o canto dos pássaros e suas leituras transcendentais, nas quais busca desvendar os mistérios da vida.
Singulares, elegemos uma presidente mulher, a advogada Cybele Pontes que já experienciara a gestão da Sociedade Amigas do Livro. Viajante contumaz, organizada, articulada e destemida, pôs-se a dar nova feição e distinção às reuniões com o seu jeito especial de ser com acepipes e congraçando os acadêmicos.
Depois, veio o terceiro presidente, Ednilo Gómez Soares, na madureza de vida, administrador e educador de escol, pesquisador e historiador que lança nesta sexta, dia 26, ao por do sol no Iate Clube, o seu quinto livro, este “Desvendando a Ilíada”.
Agora, a quinta gestora é a Desembargadora, professora e pesquisadora de história Gizela Nunes da Costa que, superando problemas de saúde, dá o que pode para o êxito na comemoração deste decênio.
Por fim, somos dos que acreditam como dizia o filósofo alemão Arthur Shopenhauer que “A glória deve ser conquistada; a honra, basta que não seja perdida”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/06/2012.

