Dezembro é um mês complicado. É o mês dos presentes e dos ausentes. Especialmente, destes. É o mês do balanço pessoal, dos planos, dos acertos com a nossa cabeça, do que não parece encaixar e fica ali martelando, mesmo que mandemos embora. É a tal da consciência nos cobrando, dizendo das falhas, das omissões e semeando dúvidas irrigadas por nossa tão falada e natural incompetência de ser feliz.
Fazer o quê? Não se pode ser múltiplo, embora nossa unicidade seja complexa, dê sinais tão díspares e nos tornem perplexos. O ideal seria o bem-estar geral, a paz coletiva, mas nosso egoísmo exige exclusividade e não se pode – e nem se deve – querer tudo. E aí é preciso optar. A opção é, sempre, que nos transforma no que somos, naquilo que nos é essencial e não aceita a farsa, o engodo, a alegria de encomenda, a efemeridade do gozo, mas a consistência do compartilhamento espontâneo, da identidade em meio às nossas diferenças. Somos todos seres em busca, em eterno desejo do encontro. De estabelecer liames, de ter laços atados a trocar energia de forma sutil, olho no olho, brilhando na certeza do encontro visual, tátil e interior. Seria o amor com paz.
Ocorre que a paz não é um fim. Ela pode ser a resposta encontrada aos nossos embates verdadeiros com a negação das aparências e conveniências. Mas viver não é só ter paz, é ter forma e arte para administrar conflitos e a compaixão de ver o outro em nós mesmos.
Falei ser dezembro e este mês nos obriga, repito, a analisar atitudes e a dar um espaço mais significativo para nosso eu interior, aquele que não sufocamos com as aparências e nem, tampouco, aplacamos as suas críticas e desejos, pois conhecedor profundo de nossas limitações e natureza. Sim, é tempo de presentes, mas não só os dos pacotes bem cuidados, mas, prioritariamente, daqueles entes queridos que formam o nosso melífico mundo. A esses, quem sejam ou onde estejam, cumpre amá-los, não como promessa vã, mas perdoando e pedindo desculpas, sedimentando comportamentos positivos, atitudes e tentando sempre estar afinados, pois a vida não é só euforia, tampouco tristeza, mas sintonia. Viver é ter consciência disso e estar sempre pleno de esperanças, sabendo que perder, ganhar, perdoar, amar, conviver e compartilhar são a nossa essência básica. O restante, como diria a Amanda, do alto dos seus quatro anos, é bobeira.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2002.

