DIA DO PAI – Diário do Nordeste

Ninguém é pai sozinho. É preciso a conjunção de um homem e uma mulher, para, por amor, desejo, negligência ou imprudência, haver o contato físico que, dependendo de fatores vários, transforma-se em fecundação e, passado o período da gravidez, dá origem a uma nova criatura. Assim, mesmo parecendo óbvio, somos o produto de vontades, acaso, talvez educações díspares e ambientes com características distintas. Sob o ponto de vista genético, herdamos o que agradecemos e também o que lamentamos. Desse modo, o pai parece ser apenas o mero detonador de um processo. A mãe é a geradora ou fiel depositária, estabelecendo, por nove meses, laços biológicos, de nutrição e afeição com alguém pulsando em seu interior. Essa elementar conclusão nos leva a crer que o pai possa ser um ente periférico, especialmente se a mãe for alguém a tentar, consciente ou inconscientemente, minimizar o papel do parceiro. É herança dos séculos passados a mistura dos papéis sociais de pai e marido. São coisas absolutamente distintas. Hoje, a sociedade relativiza esse matriarcalismo a conceder às mães uma espécie de tirania do afeto e relegar o pai a um papel secundário e estereotipado de mantenedor ou provedor. Hoje, tempos outros, sem a tutela de padrões superados na práxis da vida, há um esforço conjunto para enfrentar a dura luta pela subsistência e a educação de um ou mais filhos. Estas considerações, limitadas por espaço e conteúdo, são apenas para dizer que os pais precisam formar uma identidade comum de pensamento na condução da família, sob pena de causarem danos aos filhos, desnorteando-os pela divisão afetiva e a não apropriação de responsabilidades, ficando ao sabor dos humores da relação e da vida. Não, não esqueci ser hoje o dia dos pais. Mas é importante não romantizar em demasia a data comemorada, simbolicamente, neste dia. Há uma tarefa continuada e interminável qual seja a preparação de pais e de filhos para o mundo real sem príncipes, princesas ou fadas, pois composto de obrigações e responsabilidades. Para não dizer que não falei de flores, louvo o meu pai, supondo não ter sido filho ingrato. Segundo Shakespeare, em Rei Lear, a ingratidão é pior que a mordida de uma serpente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/08/2009.

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