“Eu não me envergonho de corrigir meus erros e mudar minhas opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender”. Alexandre Herculano.
Bem que gostaríamos de falar coisas amenas, dizer das nossas conquistas no surf na praia da Barra da Tijuca, com jovens parafinados na areia. No alto dos morros há favelas. Filipe, com i, Toledo, vencedor da etapa Rio do surf mundial, é o novo herói nacional. Carros de bombeiros a postos. O surf deve ser formidável para manchetes de televisões que veem nos esportes apenas um meio de captar anunciantes.
Não gostaríamos de ouvir megafones de manifestantes e grevistas a reclamar disso e daquilo, enquanto vias ficam entupidas de veículos parados à espera da saída deles que pouco estão ligando para o caos que provocam. Dizem que vivem no próprio caos e não faz mal importunar os outros. Outro dia foi pelos direitos da criança. Ontem, trabalhadores. Hoje, um velho carro de som alteradíssimo, vendendo pré-pagos da OI, em local proibido e abusando da paciência de todos.
O sociólogo espanhol Manuel Castells, professor de sociologia da comunicação da Universidade da Califórnia, em palestra em Salvador, nesta semana, no ciclo “Fronteiras do Pensamento”, que reúne brasileiros apoderados, disse: “A imagem mítica do brasileiro simpático só existe no samba. Na relação entre as pessoas, sempre foi violento. A sociedade brasileira não é simpática, é uma sociedade que se mata. Esse é o Brasil que vemos hoje na internet. A única coisa que a internet faz é expressar abertamente o que é a sociedade em sua diversidade. Trata-se de um espelho”. Quem mostrou em página inteira (A2- 18.05.2015), parte dessa palestra, foi Sylvia Colombo, da Folha de São Paulo.
Não vou falar que o primeiro ministro de Luxemburgo casou com um belga e virou manchete mundial. Tampouco na caçula do príncipe inglês que posou feliz com a filhota de muitos nomes próprios, inclusive o da avó falecida em discutível acidente em túnel de Paris. Tampouco de Suárez, Neymar e Messi, que ganharam, pelo Barcelona, o campeonato espanhol de futebol.
Não vou dizer do Exército Islâmico que está a 100 quilômetros de Bagdad, capital do Iraque, país que vem sofrendo com guerras e ocupações, desde há muito. Este assunto não preocupa os que moram no hemisfério sul. Há uma teoria de que tudo o que acontece em algum lugar interfere na vida do outro, independente de onde vive. Bom fim se semana.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/05/2015

