Não, não é a música de João Bosco e Aldir Blanc maravilhosamente cantada por Elis Regina. São os números 2002. Não entendo – e nem quero aprender – nada de numerologia, mas acho esses números equilibrados, bonitos de olhar e escrever. O 2 da esquerda pode ser eu e você. Os dois zeros parecem dizer nada. O 2 da direita pode ser o balanceamento da equação do bem viver entre nós (o 2 da esquerda) com o outro 2, eles.
Pode ser que este novo ano que está chegando depois de amanhã venha com mais equilíbrio. A soma dos números é quatro, quantidade ideal para uma mesa de conversação, troca de ideias, resolver diferenças, assumir culpas, perdoar e ajudar. Quatro também é um bom número para viajar de carro por este mundo afora. A energia gerada e trocada serve de fermento a entendimentos multipessoais, dois a dois, como se estivéssemos despreocupadamente jogando biriba com os pés descalços, a roupa folgada e o coração aberto às brincadeiras, sem deixar de prestar atenção ao jogo, o sentido figurado da própria vida.
2002 assemelha-se a um par de cisnes, patos silvestres ou garças alçando voo em formação. Vai ser fácil de escrever em cartas, cartões, bilhetes e cheques. Pode ser bobagem o que estou escrevendo, mas levar a vida e os seus números muito a sério não deixa também de ser uma bobagem. Afinal, estamos aqui de graça e por tal razão devemos agradecer a Deus chegarmos a este novo ano, que não tem nenhum 1, número que imperou quantitativa e soberanamente durante o século passado, ainda tão perto, mas já tão longe, parafraseando Richard Bach. Quem sabe se o século passado não tenha sido o do individualismo, justo por causa de tanto um, repetidos ano a ano.
Alguém poderá me dizer: mas este ano de 2001 já é do novo século e a humanidade sofreu tanto com ele. Não terei dúvida em responder: talvez tenha sido porque o 1 ainda era o rescaldo do individualismo do século passado. Agora só teremos um 1 em 2010 e ele, certamente ficará imprensado entre os dois zeros, sem poder dar vez ao egoísmo individualista.
Fim de ano é para isso. Conversar miolo de pote, comer muito, inventar história como esta e desejar a todos vocês, os que conheço e os não, votos de um 2002 em que eu, você e eles – os outros – vivamos em paz, com saúde, alegria e amor. Feliz Ano Novo.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2001.

