“Nenhuma mulher nasce mulher, torna-se”. Simone de Beauvoir (1908-1986), escritora francesa, em “Segundo Sexo”.
Estava ausente nos noventa anos de dona Beatriz Rosita Gentil Philomeno Gomes (foto), no 30 de outubro passado. Fui colega de seu filho Pedro Philomeno Gomes Neto, na Faculdade de Direito da UFC. A propósito, Antenor Barros Leal Filho, nosso coevo, dizia para o Pedrinho, em seu humor: “Com uma mãe dessa até eu”. Brincadeiras à parte, este texto é uma forma de dizer um pouco de dona Beatriz, não só a mulher de Francisco Philomeno Gomes, tampouco a mãe extremada de oito filhos que deram certo, sequer a religiosa de fé inquebrantável e nem a elegante que Lúcio Brasileiro louva, desde sempre.
A dona Beatriz a que me refiro é a senhora não só das prendas e valores já referidos, mas a grande companheira de viagens com amigas como Consuelo Dias Branco, Iracema Oliveira e Alzira Ximenes, entre outras.
Por um desses acasos, estava eu em alguns países em que esse grupo fluía, décadas passadas. Milton Dias, o cronista, amigo querido, agora romancista póstumo por conta dos quereres de Paulo Elpídio de Menezes Neto e Pedro Paulo Montenegro, também fazia parte da turma e alegrava a todos, com suas tiradas espirituosas, fumando em demasia, brindando com vinhos e varando noites até que, um dia, a água da limpeza matutina aspergisse sobre nós.
E nos vimos em Madri, em festa genetlíaca aos 22 de agosto e, depois, Londres, em hotel de nível. Ao chegar no grande lobby, dona Beatriz sentou-se ao piano de cauda e fez os circunstantes tomarem tento de sua presença. E exercitou com a mesma desenvoltura com que trocava de idiomas nos diferentes países europeus. Até Roberto Campos, então embaixador brasileiro na Inglaterra, a convocou para um Chá das Cinco.
Nos anos 70 passei a trabalhar em Jacarecanga, próximo à sua casa, e, sempre que podia, parava na Fábrica Philomeno, para trocar ideias com o Sr. Chico Philomeno ou comprar algumas redes especiais. Sempre gostei de conversar com pessoas mais velhas e sábias. O sr. Chico era agradável no trato e atinado em sua simplicidade. Tal como ele sempre usei roupas leves no trabalho, mas não o branco que portava, quase sempre, nas calças e “slacks”.
Voltando à dona Beatriz: peço desculpas públicas pela não presença. Andava por outros caminhos. Antes de terminar, deixo patente a admiração pela digna matriarca que soube encanecer sem perder o porte, a fé, o amor da família e o respeito notório. Parabéns. Saúde.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/11/2013

