Algumas pessoas recebem, mesmo sem saber, sinais de que seus dias serão pintados com tintas diversas. A vida não é folgança. É exercício de viver o inesperado, especialmente, quando os anos, os lustros e as décadas, vão sendo acumulados às tarefas autoimpostas ou, sabe-se lá a razão, mudam. O temporário vira definitivo, toma outra dimensão.
Uma mulher simples nasce em 07 de outubro de 1922, na Fortaleza de tanto sol, nas cercanias da Prainha. Foi acumulando perdas: a mãe morreria em 1929. Começa um “crash” pessoal, não o dos alicerces atingidos na Wall Street. Em 1935, morre o pai e é acolhida por tios. Católica deixava suas lágrimas furtivas pelos corredores do Colégio das Irmãs Doroteias, na hoje vazia capela da esquina com a Av. Domingos Olímpio. Depois, seguindo, sem saber, os passos de Rachel de Queiroz, conclui o curso Normal no Colégio da Imaculada Conceição. Estava carimbada para o mundo. Era professora.
Assim o fez no Colégio Santa Isabel, ali perto da Faculdade de Agronomia, e no Colégio São José, nas cercanias do Parque da Criança. Deu-se o estalo, não lhe apetecia ser uma mestra contratada. Pensou e materializou o sonho no Ano da Graça de 1950, quando fundou, em imóvel seu, o Instituto Cristo Rei, no bairro de São Gerardo, na Av. Bezerra de Menezes, 1643. Precisava de mais luzes. Resolveu estudar Teologia.
Para aperfeiçoar a sua didática deu-se ao trabalho, já madura, de se graduar em Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará. Todos os seus dons e a sua confiança foram sendo canalizados para o ensino de crianças pobres, algumas doentes, muitas sem o amor dos pais. Elas foram fazendo do Instituto Cristo Rei um lugar de acolhimento seguro, ano após ano, para centenas de miúdos, independentes de idade, sexo, raça ou do seu nível mental.
Tive a graça de conhecer Gercila Rodrigues Vieira neste século, quase oitentona. Foi benquerença espontânea. Muitas vezes, sem avisar, percorri os corredores não tão retos, tampouco bem iluminados do seu Instituto. Aos fundos, uma área de recreação onde crianças jogam bola alegremente. A casa cresceu como uma Babel do bem, formando um “L” de lar e de luta no imóvel por ela comprado com frente para a Rua Gen. Piragibe. Algumas ocasiões, dei carona a D. Gercila e aos seus pimpolhos, sempre alegres, mesmo quando apinhados. Nesses 66 anos cuidou de cerca de 4.000 crianças e jovens. Muitos se profissionalizaram. Algumas preferiram ficar por lá e ajudar na faina sem fim, como a Marinete e a D. Edite. A luta deve continuar.
D. Gercila recebeu, em 2005, o título de “Gente de Bem”, no seu vestido simples, florido, óculos com armação marcante, cercada por seus meninos. Ela já fazia parte do nosso convívio. Na noite desta terça-feira, 22.11.2016, na Paróquia de São Gerardo, plena de crianças, jovens e adultos, foi celebrada a missa de 7º. dia do seu falecimento, aos 94 anos. Flores brancas enchiam jarros no ofertório, ouviam-se cânticos e respeitosos adeuses, a partir da amiga Eudismar Mendes e de muitos outros. Resquiescat in Pace.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/11/2016.

