Dona Margarida, minha mãe, tinha vinte e dois anos quando, como primogênito, nasci. Era uma mulher jovem, bonita e arrumada. Os retratos não mentem e ela está aí aos 80 anos para quem quiser ver. Vai a pé para a hidroginástica, não aceita palpite de filho em sua vida e dá pitaco na de todos. É mulher de missa e comunhão quase diárias e, aos domingos, quando tomo café com ela, assiste a todas as missas e pregações pela TV.
Filha de uma família de muitos irmãos, perdeu o pai no início da juventude e, poucos anos após, foi-se consolar nos braços do meu pai, com quem viveu longos cinqüenta anos e teve nove filhos, “todos com formação universitária e donos dos seus próprios narizes”, segundo ela.
Ao ficar viúva, mesmo chorando muito, passou a morar só na mesma casa onde cultiva um jardim com plantas de muitas espécies e, anualmente, muda a cor da fachada e dos muros, com opções tão modernas e avançadas que lembram o pop e o high-teck .As suas decorações de Natal misturam lâmpadas multicores, guirlandas, papais noéis, e um arremedo de lapinha com anjos, santos e, óbvio, o menino Jesus.
Sem medo, independente financeiramente e com uma clareza de raciocínio bem própria das pessoas que lutaram muito – pois ajudou sua mãe a criar os seus irmãos –, é, ainda hoje, líder de todos eles e foi mulher tranqüila de um homem irrequieto, inteligente e charmoso. Cuida dos seus afazeres como mulher valente que sempre foi e continua sendo, vai ao Banco do Brasil, pois só confia em banco oficial.
Todo pano, novo ou velho, que chega a suas mãos é transformado em lençóis, calções e calcinhas, que distribui, segundo seus critérios, a pessoas necessitadas. Doa umas cestas básicas, ponderando a sua justiça social do jeito que lhe convém.
Com filhas espalhadas pelo Brasil(Piauí) e mundo(Alemanha e Estados Unidos), fez-se viajante e destemida. Uma vez, perdeu-se na Alemanha, mas não se fez de vítima e encarou o fato com naturalidade. É louca por comprar bugigangas e quase nunca deixa passar uma liquidação. Usa uma filha como motorista, sem lhe dar tréguas e, caso não tenha outra alternativa, toma um ônibus ou um táxi sem problemas. Reclama de não ter aprendido a dirigir na época certa, pois “não precisaria de ninguém”.
Ultimamente, ela tem brigado comigo. Diz que vou pouco à casa dela e, nos domingos, após o café, leio jornal. Ela não aceita isso. Devo dar toda a atenção a ela e às estórias que conta: da família, as tiradas do jornal que lê diariamente e das notícias que uma televisão, ligada o dia todo, lhe transmite. Quando lhe digo que, por sua causa, ganhei o apelido de “João Mamãe”, ela fala, meio abusada, “você já foi João Mamãe!”
Às noras, ela diz que não aceita reclamações, pois uma mulher deve saber com quem vai casar. Seus cinco filhos são homens, o que na linguagem direta dela, significa gente com possibilidade de errar. Dos genros, ela só tem elogios, pois, segundo ela, as suas quatro filhas são mulheres “tementes a Deus, direitas, trabalhadoras, capazes e mereceram os maridos com quem casaram”.
Hoje, certamente cercada por filhos, netos e bisnetos, não deixará de dar “carão” aos que não fizerem o que gosta ou aprova mas, ao mesmo tempo, dará boas risadas com o que achar alegre ou engraçado. Receberá presentes e, certamente, entre meio encabulada e curiosa, dirá: “precisava não”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/05/2000.

