Como dizia Aldous Huxley, escritor inglês falecido no ano do assassinato de Kennedy, “posso compartilhar as dores das pessoas, mas não seus prazeres. Existe algo curiosamente aborrecedor na felicidade alheia”. O livro maior de Huxley, “O Admirável Mundo Novo”, de 1932, fez sucesso. Criou ele uma utópica sociedade estruturada para alcançar a felicidade. Nela não havia ética religiosa ou valores morais. As referências/senhores eram Henry Ford e Sigmund Freud, confundindo-se, quiçá, em uma só pessoa pela similar pronúncia dos seus sobrenomes. Ford representaria o progresso, o Estado Mundial, e sua linha de montagem (criticada em filme por Chaplin). Freud, no livro, significaria a relação entre a psicanálise e o condicionamento humano, afiançando que a atividade sexual era fonte de prazer e não mero objeto da procriação. Tudo era ficção e visão do totalitarismo dos anos 20/30 com Stalin e Hitler. Esta introdução arrisca mostrar que o citado pensamento de Huxley, entretanto, permanece. A inveja, ou o desejo de que o outro não tenha ou usufrua a suposta felicidade que aparenta, seja material ou não, está entranhado na raça humana. Veja na Bíblia, “… a inveja destrói como câncer”, prov. 14:30. Dores humanas são indisfarçáveis, visíveis. É fácil se compadecer ou mostrar solidariedade no infortúnio alheio. A felicidade, mesmo como farsa, incomoda o outro, o invejoso, que não percebe isso. E aí ele percorre caminhos imaginários tortuosos, pela negação de qualquer coisa que seja boa para o invejado, de quem não conhece sequer desejos e entranhas. A belga Marguerite Youcenar, que alguns pensam ser francesa, no livro “Memórias de Adriano”, dizia, através de personagem, que “toda felicidade é uma obra-prima: o menor erro a deturpa, a menor hesitação a altera, a menor deselegância a estraga, a menor tolice a embrutece”. Pergunto: somos todos criadores de obras-primas? Sêneca, filósofo latino nascido antes de Cristo e que viveu 32 anos mais que Ele, afirmava “não se deve acreditar que é possível ser feliz desejando a infelicidade alheia”. Sêneca e o Latim já se foram, mas ainda parece faltar consciência e compaixão para se enxergar o outro.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/05/2010.

