O meu corpo dá avisos. Ele vai me dizendo quando estou abusando dele. Agora, por exemplo, ele teve uma conversa comigo e pediu para tirá-lo do trânsito da cidade. Varo-a quase todos os dias e o faço em horários desencontrados, dirigindo o meu carro, ouvindo notícia ou música, mas ando cansado de tantos semáforos, de motocicletas cortando pelos dois lados e das calçadas cheias de cone. Cada pessoa estabelece a propriedade de sua calçada e a adorna com cones, latas cheias de concreto ou correntes com a placa: não estacione, sujeito a reboque.
Ora, toda calçada ou passeio é público e se não há medalhão oficial de estacionamento proibido, aquele redondo com um “E” cruzado por uma barra transversal vermelha, afixado em postes, você pode parar.
Além dos proprietários das calçadas e dos passeios há os donos das ruas, os flanelinhas. Esses são em profusão e agem de forma acintosa com um pedaço de pano sujo em uma mão e uma garrafa de água na outra. Alguns, para ser justo, não usam proteção na cabeça e têm o sol como infernizador de seus juízos parcos e abusam na intromissão ao bater nos vidros, fazer gestos e até dizer palavrões. Estou cansado de não poder abrir a janela para sentir a brisa da noite. É inseguro.
Estou cansado dos “spams” recebidos em meus computadores, o de casa e do trabalho. Reclamo do provedor e da empresa de manutenção mensal dos ditos. Não consigo me ver livre de empresas telefônicas, de receitas para emagrecer, de como ser viril, de maravilhas de toda a ordem, lugares paradisíacos a preços de nada, de promoções disso e daquilo, sem falar nas orações e nos que falam bem ou mal de governantes.
Vou dar uma volta por aí. Vou e volto logo. Sou um trabalhador inveterado e preciso escrever para dar sentido a uma vida com tanta baboseira e pessoas cheias de melindres, mostrando camisas, relógios, carros, casas e falando de si mesmas. Tal como estou fazendo agora. Outras, decisivas à cultura nacional, cientes de sua capacidade intelectual e literária, ainda não mostrada em livros não escritos, pois aguardam o tempo da obra prima surgir.
Políticos loteando o governo, asfixiando a presidente Dilma com 39 ministérios. De muitos ministros, sequer sabe o nome. Eles se empavonam em viagens a seus estados a deitar falações em aeroportos, em jornais, em blogs, em rádios suas em nomes de amigos e em programas amestrados em televisões camaradas.
Peço desculpas a você por estar escrevendo assim tão bobamente. Acontece. Estou indo atrás do tempo de nada, seguindo Drummond: “tempo disso, tempo daquilo, falta o tempo de nada”. Será possível encontrá-lo? Ninguém me diz o endereço, sequer o caminho, nem o sabichão “Google”. Assim mesmo, vou dar uma volta sem muito aprontamento e desprevenido. Volto logo, talvez esteja viciado no dia-a-dia deste mundo sem dono.
João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/03/2013.

