A liberdade invocada pelos americanos, constitucionalmente, para portar armas (não esqueça: a guerra é a constante na terra de Lincoln) parece ser a mesma dos adictos sobre as suas vontades. A decisão do governo paulista de internar os milhares de viciados em “crack”, até contra as suas resistências, tem sido questionada.
Sem entrar no mérito legal da discussão, lembro: não só os viciados em “crack”, cocaína e outros causam problemas às suas vidas, às suas famílias e à sociedade. Não há um fim de semana sem alcoólatras a provocar mortes no trânsito ou crimes contra pessoas.
No dia 23 de janeiro, a jornalista Iara Biderman, na Folha, entrevistou os psicanalistas Antonio Alves Xavier e Emir Tomazelli, autores do livro “Idealcolismo”. Segundo eles, o alcoólatra é como um fanático religioso “porque ele transforma a bebida em uma substância divina. Ao beber o ´deus álcool´, comunga com essa substância… acredita que vira deus, não tem que enfrentar as limitações e frustrações do ser humano. Vira todo-poderoso e se entrega a esse ídolo que o faz sentir-se onipotente”. Concordemos ou não com essa abordagem, os autores retratam o dependente: “deixa de ser humano, de se responsabilizar pelo que faz com sua vida – a culpa é do álcool, não dele. E acaba perdendo a sua parte ética, porque fica perdido em sua individualidade, sem considerar o outro”.
Como, mais das vezes, retoma a vida normal nas segundas-feiras, não traz sentimento de culpa e debita ao álcool os estragos feitos em família, amigos, ao dirigir ou ao se envolver em discussões causando danos morais a terceiros.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/02/2013.

