Estória um: Ao atravessar a avenida, ela foi abordada por dois homens que lhe disseram imediatamente: abra a bolsa. Ela, sem nenhum sinal de medo, abriu a bolsa e um deles meteu a mão. Viu o cartão de retirada de dinheiro no caixa automático de um banco.
Chamou um táxi e lá se foram os três ao banco, onde ela entrou sem que nenhum guarda visse que estava cercada de dois marginais. Colocou o cartão, digitou a senha e retirou R$ 2.000,00. Os bandidos receberam o dinheiro e a colocaram em um novo táxi. Ela chegou em casa e, incontinenti, resolveu voltar ao banco, pois ainda tinha R$ 900,00 e os marginais sabiam de sua senha. Retirou o saldo, trocou a senha e voltou, calmamente, para casa.
Somente após nove meses, relatou o fato aos filhos, pois, certamente, iriam proibi-la de andar sozinha pela cidade. Contou rindo, como se fora uma aventura pela qual pagou um ingresso de R$ 2.000,00. Os poucos filhos que souberam, olharam-na desconfiados e disseram o de sempre: “Mãe, a senhora não tem jeito”. A mãe, sem jeito, criou todos eles e, mesmo após viúva, continua no albor da sua octogeneidade estudando música, lendo jornais e, de leve, palpitando sobre a vida de cada um.
Estória dois: Chegaram dois caminhões com quinze homens encapuzados e renderam todos os empregados. Colocaram-nos em um depósito e ficaram esperando que os donos da fazenda chegassem. Era uma sexta-feira. Data marcada para toda a família deslocar-se à fazenda, fazer as contas com os moradores, e,naturalmente, descansar.
Já era meia-noite e os donos não chegavam. O chefe dos encapuzados dizia que estava louco para matar os donos da fazenda e que a demora era injustificável. Ocorre que um dos filhos dos donos da fazenda foi acometido de um grave problema de saúde justo ao cair da tarde da dita sexta-feira. Ao invés de irem à fazenda, tiveram que cuidar do filho enfermo. E os encapuzados, na manhã de sábado, roubaram alguns pertences, um trator e se foram deixando um recado: voltariam.
Estas duas estórias, ainda bem que, com finais felizes, são o retrato deste nosso Brasil inseguro, onde ninguém sabe mais o que fazer, pois os bandidos usam fardas para assaltar, as polícias se dizem desequipadas e sem pessoal suficiente e ninguém toma uma providência mais séria.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/11/2000.

