E AGORA? – Diário do Nordeste

Era uma vez uma procissão de caravelas. Perderam-se por falta de vento de popa e acabaram dando com a proa em terras nunca dantes navegadas. Com vento ou sem vento, desceram pela terra a dentro e viram, estupefatos, “quase-pessoas”. E essas quase-pessoas eram donas de tudo, mas ainda não havia cartório nessa época para registrar as terras e cobrar os emolumentos, depois de muito protocolo. Como tal aconteceu é só ler a carta do Caminha, o escriba. E armaram uma cruz em torno da qual rezaram. E por conta dessa cruz quase-todos ainda estão crucificados. Quase-todos são os muitos dos que foram gerados nas relações entre as quase-pessoas e os quase-perdidos, pois navegar não sabiam. Se o soubessem cá não teriam chegado. Mas chegaram. E como os quase-perdidos não eram de trabalhar, imitaram os ingleses e trouxeram vozes e corpos de África. Mais corpos que vozes. E todos se embaralharam. Surgiu uma raça nova, essa que é produto de toda a turma. E aí começou a vir ao mundo uma gente peculiar, fruto do usufruto da gandaia geral estabelecida por toda a orla e das picadas pelo interior para escavar metais. E levaram, levaram tudo. O que ficou virou geleia. E essa geleia tem o nome do lugar de origem. Esse lugar com progenitores na cidade-estado quase copiada das ideias de Le Corbusier. E os pais do berço esplêndido usam ternos com muitos bolsos – para que será? – e gravatas para indicar que não são gente comum. E resolveram dar ordem à desordem e todos tinham muitos parentes e aderentes precisando de ocupação e distração. E lá ficaram na grande quenga de coco em que todos se empavonam de ser suas excelências. E como o circo precisava de animação colocaram uma televisão que não mostra o vazio das reuniões tribais em que se fantasiam de defensores de tudo. E o jogo não acontece por falta de atacantes. Quando aparece algum, pedem para sussurrar e não sujar a água bebida em comum. E de água semi-suja se faz a vida acontecer em três dias da semana. Os outros quatro são para as tramas. Aboliram os tremas, urdiram as tramas e tiraram as tramelas de janelas que continham o fétido odor da ambiência sem a qual não podiam respirar. E agora?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/08/2009.

Sem categoria