Antes mesmo de Steve Jobs despontar no mundo cibernético eu procurava – em tempo de brasilidade excessiva – mexer nos nacionais computadores. Cobra, por exemplo. Que jeito. Ia, passo a passo. Digo melhor, dedo a dedo. Não havia e-mail, existia lista telefônica por nome e endereço e a ajuda do 102 não era essa praga digitalizada. Agora, 48% dos brasileiros têm computadores, outros milhões usam e-mail e há 210 milhões de telefones celulares pré-pagos, pagos e institucionais. Como se presume que Deus vê e ouve tudo, imaginem a zorra que esses milhões de conversadores fazem ao telefone.
A toda hora, nossos endereços eletrônicos recebem convites de amigos e até de estranhos para participar de redes sociais. Ora, ora. Parece ser natural todos perguntarem os números dos nossos telefones e os e-mails. Não é. Atendentes, frentistas, amigos, colegas, corretores e vendedores abusam do direito de pedir o que pode nos incomodar 24 horas por dia. E se você quiser que o número do seu telefone não seja divulgado pela voz metálica do 102 há que pagar uma taxa mensal pela privacidade à gestora de sua conta que, unilateralmente, mensura os minutos das ligações que recebemos e fazemos. Quem nos diz que o minuto dela tem 60 segundos? Quem nos diz se tudo não é contado, inclusive os trins, trins e as vozes que pedem para deixar recado? Essas agências reguladoras governamentais, até agora, nada fizeram pelos consumidores, pois seus integrantes não são técnicos, mas políticos ou afins a serviço de partidos no poder que recebem boas remunerações e generosas doações dessas operadoras.
Quanto aos e-mails o problema é grave. Há serviços gratuitos e pagos. Os gratuitos – para você – são usados – por eles – para vendas de listagens empresariais por profissão, idade, sexo, renda, endereço etc. Os pagos seriam reservados. Os provedores prometem respeitar o seu usuário.. Quem garante? Todos recebem e-mails tidos como “Spams” ( mensagens comerciais não solicitadas, pornografia, propaganda política, sites de relacionamento etc) que precisam ser apagados ou rejeitados por antivírus. Os antivírus podem ser pagos ou gratuitos. E aí recomeça a história da invasão de sua caixa postal. É ato de fé ter um computador ativo neste mundo de “hackers” contumazes, espiões libertinos ou os interessados na nossa vida pessoal/profissional.
Milhares são os computadores que sofrem ainda invasões de detetives particulares ( as propagandas estão nos anúncios de jornais) e escutas – autorizadas ou não – pelos três poderes, até editando o que as pessoas falam para atingir os objetivos desejados. Como somos pós-modernos pagamos o preço. Hoje, temos uma vaga noção de tudo e conhecimento de quase nada, parafraseando Charles Dickens.
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/11/2011.

